top of page

Santa Catarina

SC

Forquilhinha

Região:
Sul
Área do território:
Mesorregião:
Sul Catarinense
População (censo de 2022):
Microrregião:
Criciúma
Região imediata:
Criciúma
Região intermediária:
Criciúma
183.351
31431
  1. CONTEXTO ETNO-HISTÓRICO

Forquilhinha, como algumas das atuais cidades do sul do Brasil, teve sua origem, com a vinda dos colonos europeus impulsionados por questões adversas que vinham ocorrendo na Europa, como as grandes guerras mundiais, a falta de terras férteis e de incentivo a agricultura. Ante este cenário, diversos grupos se transferiram para o Brasil a fim de recomeçar suas vidas. Entre os séculos XIX e XX, o governo brasileiro desenvolvia uma política específica para promover e atrair, na Europa, pessoas interessadas em migrar para o Brasil e preencher o que o governo brasileiro chamava de “vazio demográfico”.

O governo pretendia garantir a posse destas terras via expansão da fronteira agrícola, integrando, deste modo, estas áreas a economia do império e consolidando as fronteiras com outros países que, em algumas regiões, estavam em discussão nesta época (ZANELATTO, 2012 p 23).

Forquilhinha nasceu da dissidência de colonos alemães, migrantes da comunidade de São Martinho do Capivary, no século XX, período em que ainda era distrito de Nova Veneza que por sua vez, pertencia ao município de Araranguá.

O nome “Forquilhinha” se deu devido ao encontro do Rio Mãe Luzia com o Rio São Bento, que produzem o formato de uma forca no seu entroncamento e que seguem sentido a Araranguá até desaguar no Atlântico.


Figura 1: Imagem do encontro dos Rios Mãe Luzia e São Bento. Fonte: Museu Anton Eyng.
Figura 1: Imagem do encontro dos Rios Mãe Luzia e São Bento. Fonte: Museu Anton Eyng.

Em virtude da proximidade do rio, o município de Forquilhinha, no decorrer de sua história, sofreu com grandes enchentes. Há registro de quatro, sendo a primeira ocorrida em 1918, que produziu uma grande epidemia e levou muitos moradores a morte. Outra ocorreu em 1950. Depois aconteceu a enchente de 1974 que atingiu praticamente toda a região sul do Estado de Santa Catarina, desde Tubarão até o extremo sul e a última delas foi registrada em 1995.

No princípio da ocupação daquele território se tem relatos históricos do contato entre os colonizadores e o grupo de índios Xokleng, que ocupavam este território antes da chegada dos europeus.

Há relatos de viagens/expedições de João José Back, Geraldo e Gabriel Westrup, Gabriel Arns, Guilherme e Francisco Back em visita aos parentes de São Bento Baixo em busca por novas terras, assim Otília Arns, descreve o contato daqueles com os vestígios da presença Xokleng,

Cansados, meio sem rumo certo, ansiosos por descobrir uma alma viva, avistaram dezoito cabanas vazias de índios. Será que se retiraram para nos preparar uma emboscada? Foi o pensamento dos mais amedrontado. (ZANELATTO, 2012, p 52)

Muitos conflitos existiram com os Xokleng durante o século XIX e XX envolvendo frentes colonizadoras e os tropeiros, principalmente por meio da atuação dos chamados “bugreiros” que acabaram por promover um processo de extermínio do povo Xokleng.

Os bugreiros, normalmente agiam entre 8 a 15 pessoas e geralmente eram formados por parentes, a maioria eram caboclos conhecedores das florestas e operavam sob o comando de um líder. Os ataques desferidos aos acampamentos se davam de surpresa.

Para mostrar o nível de estranhamento que se estabeleceu diante de culturas tão distintas, o sentimento de insegurança e o grau de violência estabelecido entre colonos e Xokleng, Gabriel Michels, em entrevista concedida ao Pe. João Leonir Dall’Alba em agosto de 1986, relata:

Um dia um primo meu, Matias Michels tinha ido macuacar, no entardecer. Logo ouviu um piar de um macuco. Foi lá mas o macuco piou do outro lado. Foi lá e de novo noutro lugar. Ai já era escurinho lá no mato e desconfiou que fossem os índios que estivessem bobiando. Resolveu voltar. De pistola na mão, foi andando pelo carreiro. Havia uma touceira dessa palha do mato bem no lado. Quando passou havia um índio lá que empurrou em cima dele aquela palha. Ele deu um tiro. Não sabe se matou ou não. Mas ao cabo de um ano, estavam derrubando o mato, sempre com pistola na mão. Um dia, tinha colhido um abelheira e desceu um barranco para lavar as mãos. Ai viu um índio. Atirou e derrubou. Viu outro com a flecha pronta e atirou também. Ai largou o machado no mato e correu em direção a casa. Já vinha a mulher dele que ouvira os dois tiros. Foi sorte não ter sido morto, porque se não, teriam matado também a mulher dele que vinha ali ver o que era. Ai juntou mais gente para derrubar o mato.Não foi mais sozinho. O povo que estava morando por aqui ficou com medo. Então esse Antônio Neurembreg foi para Araranguá onde ia pagar impostos e chamou de lá um negrão alto, que era caçador de bugre. Esse reuniu dezenove homens. Foi daqui um filho do Antônio, o Henrique. O povo daqui deram as armas e tudo mais o que precisavam. Ai andavam pelos matos da redondeza. De repente, de manhã, pelas 7 ou 8 horas, no mês de agosto, pegou um tiroteio. ‘Olha disse minha mãe, acharam os bugres!’ Eles tinham se ocultado no meio dos caetés altos. Depois de entrar nos matos ninguém podia fumar nem nada. O negro era prático: sabia que os índios andavam pelos lugares mais limpos. Era ali no Rio Cedro, numas lombas altas. Acharam a morada dos índios. Era um rancho comprido com uma porta só. Havia um índio sentado fora. Mataram aquele, ai os outros vinham saindo, e conforme vinham saindo eram mortos pelos tiros. Quando acabaram de matar essa gente, pegou uma menina e um menino. Rapidamente pegaram o que puderam, cestinhas, flechas, e coisas bonitas, tudo, e vieram embora para cá saindo atrás da casa o Antônio Neuremberg. Os índios lá no Morro Redondo vieram atender os outros e vieram perseguindo os caçadores até ali perto da casa. O negro foi muito prático e trouxe eles certo. Os índios tentando se aproximar dos lados, mas eles, tiro para cá, tiro para lá... De tarde é que chegaram fora. Aí meu pai juntou nós todos e fomos lá ver. Aí já tinha lavado o chão e vestido as crianças. Elas andavam na sala, deitadas no chão se lamentando. Tinham menos de dez anos. A menina ficou com Antônio Neuremberg e o menino foi levado para Araranguá. A menina foi batizada com o nome de Rosa. Num dia de frio as crianças todas foram brincar no engenho de cana. De repente pegou fogo no vestido da indiazinha Rosa. Correu para casa, com graves queimaduras. Em Veneza havia um médico que veio da Itália, um doutor prático. Levaram, mas o médico não deu volta e a menina morreu daquilo. Era da minha idade e tínhamos brincado muito juntos. Era bem encorpada, bem reforçada. Nunca mais se soube nada do menino. Mais tarde, os que derrubaram o mato no local da caçada, disseram que era uma barbaridade os ossos, os crânios que encontraram lá. Foi uma barbaridade! Eles são gente também, não deviam ser morto assim! Deve ter sido em 1910 ou 11. (ZANELATTO, 2012, p. 55)

Mesmo diante de tanta violência os Xokleng se mantiveram num estado de luta permanente para assegurar sua sobrevivência diante da conquista, mesmo ainda depois da destruição quase que total dos recursos naturais, que outrora abundavam em suas terras e que após o contato diminuiram significativamente.

Os poucos Xokleng que restaram foram confinados em determinadas áreas pelo Estado e pelo SPI – Serviço de Proteção ao Índio. Em 1952 fora encontrado no entorno da região conhecida por Três Barras/Orleans, na encosta da Serra, um casal de velhos e um jovem que possivelmente seriam os últimos da região.



Figura 2: Imagem do primeiro contato dos colonos da região de Três Barras/Orleans 1952 com os últimos Xokleng da região sul que se teve notícias. Fonte: (ZANELATTO, 2012 p.77)
Figura 2: Imagem do primeiro contato dos colonos da região de Três Barras/Orleans 1952 com os últimos Xokleng da região sul que se teve notícias. Fonte: (ZANELATTO, 2012 p.77)


Figura 3: Imagem do primeiro contato dos colonos da região de Três Barras/Orleans 1952 com os últimos Xokleng da região sul que se teve notícias. Fonte: (ZANELATTO, 2012 p.77)
Figura 3: Imagem do primeiro contato dos colonos da região de Três Barras/Orleans 1952 com os últimos Xokleng da região sul que se teve notícias. Fonte: (ZANELATTO, 2012 p.77)


Esses combates, derivados do processo de colonização não ocorreram somente entre os Xokleng e os colonizadores, salientando que Forquilhinha não fora marcado por este fato, pois já não se encontravam no território os indígenas, quando a chegada dos imigrantes alemães em 1911/12, mas sim nas suas redondezas.

Deduz-se a partir de relatos, a presença de luso-brasileiros no território de Forquilhinha, denominados genericamente por “caboclos” que são frutos da miscigenação promovida, na maioria das vezes, entre portugueses, açorianos, índios e negros, que provavelmente migraram para a região a partir de Araranguá, seguindo o curso dos rios, ainda no século XIX.

Portanto seguidos dos Xokleng, os luso-brasileiros foram também “pioneiros” na ocupação do território que hoje compreende Forquilhinha, contudo isso não significa que o núcleo urbano tenha sido instalado pelos mesmos.

De acordo com a análise de Beckhäuser,(ZANELATTO, 2012 p:57)

Os primeiros habitantes de Forquilhinha foram algumas famílias descendentes de açorianos da costa litorânea do Oceano Atlântico, que aí viviam como posseiros. Os Da Rosa, os Tomaz, os Rocha, os Machado. Não podem simplesmente serem chamados de ‘caboclos’, nem de intrusos.

Além de açorianos, negros, indígenas, alemães, se tem registro da presença de italianos e poloneses em Forquilhinha.

A colonização italiana se formou a partir das colônias de Azambuja, em 1877; Urussanga, em 1878; Criciúma e Accioli de Vasconcelos (Cocal), em 1880; Presidente Rocha (Treze de Maio), em 1887; Grão Pará, em 1882; Orleans, em 1885 e Nova Veneza, em 1891. Importante ressaltar que muitas destas famílias migraram para outras localidades (ZANELATTO, 2012).

Foi o que aconteceu com as primeiras famílias que se instalaram no território de Forquilhinha antes e depois de 1911/ 1912, onde os italianos e seus descendentes também marcaram presença, ocupando as terras situadas no entorno do núcleo colonizador (ZANELATTO, 2012).

As famílias oriundas de Nova Veneza que se tem relatos foram: José e Amaro Canella e a família Zanette, de Urussanga, Romualdo Forgiarini, e Luiz Berlanda de Criciúma (ZANELATTO, 2012).

A imigração polonesa em Santa Catarina fixou-se inicialmente na Região Sul, mais especificamente nos vales dos Rios Urussanga, Tubarão, Mãe Luzia e Araranguá. Mais tarde ocupou o litoral norte do Estado e de lá, por meio da Colônia Dona Francisca, chegaram à região de São Bento.

Há registros da presença desse grupo em Forquilhinha pelo cronista Adolfo Back (ZANELATTO, 2012, p. 63). Relatando que “entre os habitantes primitivos nas redondezas, havia diversas famílias de origem polaca, como os Langer, Utarski, Tiscoski”. Este último manteve importante papel em Forquilhinha, sendo os construtores da primeira escola, bem como a primeira família a praticar uma religião que não fosse a Católica, já que eram Luteranos.

Por fim, os fundadores do núcleo colonial de Forquilhinha foram os alemães, que tiveram sua primeira incursão no final do século XIX, provavelmente nos últimos anos daquele século. Foi quando um grupo formado por colonos do Capivary, composto por Henrique e Germano Berkenbrock, Germano Boeing, Felipe Arns e João José Back saiu em direção ao vale do Rio Araranguá, a fim de verificar se realmente existiam terras em quantidade, qualidade e disponibilizadas para venda (ZANELATTO, 2012).

Essa busca por novas áreas de terra, geralmente associada a escassez dos lotes em São Martinho devido a cultura de formação de famílias numerosas, apresenta-se como uma forte característica deste grupo. Afinal, já haviam migrado de Teresópolis e Santa Isabel para Capivary e de lá para outros lugares.

Nessa ocasião, Henrique Berkenbrock e Germano Boeing chegaram a comprar uma gleba de terras que mais tarde foi vendida sem que eles a ocupassem, pois constataram que haviam realizado um mau negócio (ZANELATTO, 2012).

Pouco mais tarde, em 1910, ouve nova irrupção, desta vez com João José Back e Gabriel Arns, Geraldo e Gabriel Westrup, Guilherme e Francisco Back, com o propósito de comprar novas terras. Desta viagem derivou a compra de 690 hectares por Gabriel Arns, Geraldo Westrup e João José Back. Também participaram da compra José Michels e João Backes, ambos moradores de São Bento. Portanto, Forquilhinha emerge a partir do investimento feito por colonos migrantes do Capivary e São Bento Baixo (ZANELATTO, 2012).


• Emancipação de Forquilhinha


As lutas pela emancipação de Forquilhinha ocorreram nas décadas de 80 e 90 do século XX, quando motivados pelo espírito de emancipação que o país passava 20 novos municípios foram criados no Brasil. Em 26 de abril de 1989, foi criado o município de Forquilhinha, instalado, solenemente, em 1º de janeiro de 1990. Logo após o a vitória da emancipação, começaram as organizações dos partidos políticos com vista ás eleições que ocorreram no ano de 1989. Foram organizados os diretórios e criados seis partidos políticos que disputaram o pleito naquele ano (ZANELATTO, 2012).

Os partidos foram: PMDB, PDS, PFL, PT, PDT e PSDB. Destes disputaram a vaga para executivo o PMDB e o PDS, os demais partidos lançaram candidatos somente para o legislativo. De 1989 a 2008 os cidadãos de Forquilhinha participaram de seis eleições que definiram os mandatos do poder executivo e legislativo municipal. Nesses processos participaram como candidatos para o poder executivo e legislativo representantes das etnias luso-brasileiras, polonesas, italiana e alemã, mas com predomínio das duas últimas.


  1. REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Somos Puros. Campinas, São Paulo: Papirus, 1994.


CRUZ, Mércia Socorro R.MENEZES, Juliana S. PINTO, Odilon. Festas Culturais Tradição, comidas e celebrações.In: I encontro Baiano de Cultura – I EBECULT-FACOM/UFBA. Salvador-Ba, em 11 de dezembro de 2008.


DANTAS, M., et al. "Geomorfologia aplicada a gestão integrada de bacias de drenagem: Bacia do rio Araranguá (SC), zona carbonífera sul catarinense."Estudos hidrológicos e hidrogeológicos da bacia hidrográfica do rio Araranguá (SC)(Mapas e Relatório). CPRM-DEHID-SURIG-PA (2005).


DALL’ALBA. João Leonir. Imigração Italiana em Santa Catarina. Caxias do Sul. Ed. Lunardelli. 1983.


DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. História Oral: memória, tempo, identidades. 2 ed. Belo Horizonte. Autêntica, 2010.


FARIAS, Vilson. Dos Açores ao Brasil meridional: Uma viagem no tempo: 500 anos, litoral catarinense: um livro para o ensino fundamental-2 ed – Florianópolis: Ed. Do autor, 2001.


IBGE, INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Geografia do Brasil – Região Sul. Rio de Janeiro:IBGE, 1977.


LAVINA, Rodrigo. Os xokleng de Santa Catarina: uma etnohistória e sugestões para os arqueólogos. Dissertação de Mestrado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Instituto Anchietano de Pesquisas, 1994.


MENDONÇA, M. Clima, Riscos e Desastres em Santa Catarina. In: Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica - VII SBCG, 2006, Rondonópolis. Anais do VII SBCG - Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica. Rondonópolis: Laboratório de Climatologia. Departamento de Geografia. Instituto de Ciências Humanas e Sociais., v. 1. p. 01-22. 2006.


NEGRINE, Airton. Instrumentos de coleta de informações na pesquisa qualitativa. in; A Pesquisa Qualitativa na educação Física. 4ª ed. São Paulo:7 letras, 1999.


NOELLI, Francisco Silva. A ocupação humana na região sul do Brasil: Arqueologia, debates e perspectivas – 1872-2000. In: Revista USP. São Paulo. (44):218-269. dez/fev 1999-2000. Dossiê Antes de Cabral: Arqueologia Brasileira II.


PIAZZA, Walter. Italianos em Santa Catarina. Florianópolis: Lunardellh. 2001.

______Imigração italiana em Santa Catarina. Florianópolis, 1976.


SANTANA, NARA MARIA CARLOS DE Colonização alemã no Brasil: uma história de identidade, assimilação e conflito. Dimensões, vol. 25, 2010, p. 235-248. ISSN: 1517-2120.


SEYFERT. Giralda. Nacionalismo e Identidade Étnica. Florianópolis. Fundação de Cultura. 1988.


SILVEIRA, J.D. Morfologia do litoral. In: AZEVEDO, A. ed. Brasil: A Terra e o Homem, v.I: As Bases Físicas. São Paulo, Cia. Ed. Nacional. p.253-305. 1964.


SANTA CATARINA. Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Zoneamento ecológicoeconômico - ZEE: Vale do Itajaí.Florianópolis, 1999. 170 p.


TAFFNER, Andrei. História de Rio dos Cedros e sua colonização. In: Revista História Catarina- Ano III- Número 14 set/out 2009.

bottom of page