Santa Catarina
SC
Florianópolis
Região:
Sul
Área do território:
Mesorregião:
Grande Florianópolis
População (censo de 2022):
Microrregião:
Florianópolis
Região imediata:
Florianópolis
Região intermediária:
Florianópolis
674.844
537211

CONTEXTO ETNO-HISTÓRICO
Quando os primeiros navegadores europeus chegaram às terras meridionais do Brasil, no inicio do século XVI, a Ilha de Santa Catarina era habitada por indígenas Guarani, também conhecidos como Carijó. Esses índios ocupavam todo o litoral, desde a Cananéia, em São Paulo, até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Possuíam uma organização social complexa, distribuída em subgrupos e divididos em diversas aldeias. Caracterizavam-se como sedentários e dominavam a técnica da horticultura, caça e coleta, olaria, cestaria e a fiação do algodão, além do grande conhecimento de ervas medicinais (MIRA, 2002 p.83).
De acordo com Mira (2002), muitos naufrágios que aportavam na costa de áreas estratégicas com portos naturais, como o de São Francisco do Sul e da Ilha da Santa Catarina, acabaram permanecendo entre os indígenas que habitavam a região. Essa ação integradora também facilitou o reconhecimento do território e vegetação da região, bem como o abastecimento das embarcações, pois, conhecendo as fontes de água e matérias-primas, os navegadores puderam explorar melhor o território catarinense.
Esse processo de desembarque de navios na Ilha de Santa Catarina foi anterior ao processo efetivo de colonização da Ilha. Segundo Várzea (1985 p.5), em 1515 João Dias de Solis, navegante espanhol em viagem ao sul do Brasil, foi o primeiro a desembarcar na Ilha. Posteriormente, vieram Sebastião Caboto, em 1540; Diego Garcia, em 1527; e Álvaro Nunes Cabeza de Vaca, em 1540. Em 1554 uma frota castelhana que seguia para a Prata também aportou na Ilha.
Historicamente, para a exploração das terras do sul do Brasil, os portos naturais de Laguna, São Francisco e da Ilha de Santa Catarina foram fundamentais, pois abasteceram com água os navios que seguiram em direção ao Rio da Prata ou para o Pacifico através do estreito de Magalhães. O que os tornou ponto de interesse de Portugal, que começa a alimentar a ideia de fundar uma colônia na margem esquerda do Rio da Prata (RIEDERER, 2002).
Essa condição especial que transforma a Ilha em parada obrigatória tem origem a primeira atividade econômica na região, o suprimento de víveres e lenha, bem como a manutenção e reparo das embarcações. Juntamente com a atividade madeireira, o suprimento de frutas, especialmente de limões, elemento imprescindível para a sobrevivência das tripulações, levou inclusive à dominação do, até hoje conhecido, Saco dos Limões (RIEDERER, 2002 p.373).
O sistema de povoamento do sul do Brasil obedeceu a uma ordem expansionista da Coroa portuguesa, cujo objetivo era colonizar o litoral, principalmente as terras localizadas na porção meridional da colônia Portuguesa para garantir a posse da terra disputada por Portugal e Espanha. Daí, resultou a fundação dos três principais núcleos de povoamento de Santa Catarina: Nossa Senhora do Rio São Francisco, em 1645, por Manoel Lourenço de Andrade; Nossa senhora do Desterro, em 1673, por Dias Velho; e Santo Antônio dos Anjos de Laguna, em 1676, por Domingos de Brito Peixoto. Após a fundação desses núcleos, deu-se início a divisão das terras em sesmarias (CORREA, 2004; PIAZZA, 1985 apud SANTOS, 2005 p.27).
As iniciativas para a ocupação da Ilha e o seu desenvolvimento econômico ocorreram por volta de 1662, mas principalmente a partir da Póvoa de Nossa Senhora do Desterro, em 1673, quando o bandeirante Dias Velho trouxe sua família à capitania, consolidando a formação do povoado na Baía Sul, próximo de onde se localiza atualmente da atual Praça XV (RIEDERER, 2002 p.374). Várzea (1985) argumenta que esse momento foi fundamental para o desenvolvimento da Ilha de Santa Catarina, enfatizando a importância histórica de Dias Velho.
Velho Monteiro era um laborioso agricultor, que ao ter notícias constantes da Ilha de Santa Catarina, do comércio que aí se fazia e da índole mansa dos indígenas, resolvera transportar-se para ela com toda sua família. Efetivamente em 1651 aí veio aportar, trazendo consigo sua mulher, três filhas e dois filhos moços, João e Salvador Pires, além de 500 índios domesticados. Acompanham-no também dois padres da Companhia de Jesus e um agregado de nome José Tinoco, cuja família se compunha de um filho e duas filhas. Escolhido lugar para a colônia, lançou os seus primeiros fundamentos, edificando ranchos ou choupanas que passou a habitar com seus, erigindo ao mesmo tempo uma ermida, sob a invocação de Santa Catarina, de onde se originou o nome da Ilha e do Estado, no próprio local onde se acha hoje a matriz do Desterro (VÁRZEA, 1985 p.7).
No ano de 1726, o povoado de Desterro foi elevado à categoria de Vila. Em 1738, com a criação da província de Santa Catarina, Desterro tornou-se sua capital político-administrativa, sofrendo algumas alterações estruturais. Isso ocorreu no governo do Brigadeiro José da Silva Paes, que iniciou a construção das fortificações e edificações administrativas que hoje fazem parte da história de Florianópolis (RIEDERER, 2002 p.374).
A criação da Capitania teve como principal impulso a posição geográfica e a estrutura do porto, que serviu como importante porta de entrada de navios oriundos da Europa para o Rio da Prata, o que motivou Portugal a desmembrar a ilha e a terra firme contígua da capitania de São Paulo (CORREA, 2004 apud SANTOS, 2005).
A partir do entendimento da Ilha de Santa Catarina como ponto estratégico, Portugal resolveu transformá-la em pólo de defesa do litoral sul do Brasil. No ano de 1750, a vila de Desterro (sede) contava uma população total de 619 habitantes, sendo 258 moradores que já moravam em Desterro antes da introdução de açorianos. O restante eram imigrantes que totalizavam cerca de 1185 pessoas (FARIAS, 1998).
A construção e reforma da igreja matriz de Nossa Senhora do Desterro, bem como a edificação dos fortes militares, representaram para Desterro um símbolo de poder político e militar. O primeiro forte foi construído em 1738, conhecido como Fortaleza de Santa Cruz da Ilha de Anhatomirim; em 1740, foi edificada a fortaleza de São José da Ponta Grossa; em 1740, a Fortaleza de Santo Antônio da Ilha de Ratones Grande; e, em 1742, a Fortaleza da Nossa Senhora da Conceição da Barra do Sul. As demais fortificações foram construídas posteriormente, durante a liderança de outros militares. Essas fortificações tinham como objetivo garantir a posse de terras em um período em que havia uma grande disputa entre a Coroa portuguesa e espanhola, contribuindo para apoiar o desenvolvimento dos primeiros núcleos de ocupações de imigrantes em território catarinense (CORREA, 2004 apud SANTOS, 2005).
O século XVIII foi particularmente importante para a ilha de Santa Catarina, principalmente para o povoado fundado por Francisco Dias Velho. Se após a sua morte a população da ilha sofreu uma drástica redução, voltando o local a ser habitado por poucos colonos, o período seguinte enriqueceu sua história com a criação de uma capitania real, consolidou uma pequena organização urbana na antiga povoa estabilizou-se militarmente coma construção dos fortes e fortalezas, povoou-a com a chegada de casais açorianos para, finalmente, entregá-la aos inimigos espanhóis. Ao contrário do marasmo existente nos séculos XVI e XVII, nos quais o lugar servia somente de passagem a navegantes que insistentemente ficavam na ilha, a agitação política, social e militar na Ilha foi intensa em todo o século XVIII. A final a criação da capitania da Ilha de Santa Catarina significou a instituição da primeira unidade política no sul do Brasil (CORREA, 204 apud SANTOS, 2005)
A construção das fortificações foi importante para o início da ocupação efetiva da Ilha e para o desenvolvimento da agricultura e da indústria manufatureira de subsistência. Juntamente a esse desenvolvimento, em meados do século XVIII, verifica-se a implantação das “armações” para a pesca de baleia: Armação da Piedade (em Governador Celso Ramos) e a Armação do Pântano do Sul (em Florianópolis), que possibilitaram a comercialização do óleo de baleia fora de Santa Catarina.
O projeto de colonização do Brasil meridional, do qual fazia parte a ocupação do espaço litorâneo, se amplia e se consolida com a instalação de bases político-militares, o que levou a construção de um complexo de fortificações, principalmente na Ilha de Santa Catarina, e a edificação de armações baleeiras, financiado por capitais comerciais portugueses, para extração de óleo de baleia, utilizado nos séculos XVIII e XIX para vários fins (PEREIRA, 2002 p.104-105).
Nesse momento histórico, enquanto Portugal organizava a vinda dos casais açorianos para a Ilha, tratavam-se também as estratégias das fortificações. O relacionamento baseado nas disputas territoriais de Portugal e Espanha foi importante para a organização do espaço de assentamentos dos imigrantes açórico-madeirenses, estabelecendo-os nas várzeas e restingas, como a região de Ratones, Vargem do Bom Jesus, Vargem Grande, Vargem Pequena, Canasvieiras, Ingleses, Pântano do Sul e Armação (ZEFERINO, 2002). O quadro a seguir traz informações referentes às fortalezas da Ilha de Santa Catarina, com anotações do ano de sua construção e atual uso.
Quadro 6: Fortalezas, ano de fundação/construção e fechamento/uso
Fonte: (ZEFERINO, 1999 apud PEREIRA, 2003)
Nome da Fortaleza | Ano de Fundação | Ano de fechamento ou uso | Localização |
Santa Cruz (Ilha de Anhatomirim | 1739 | Em uso para fins culturais | Na ilha de Inhatomirim, junto á costa continental, fazendo frente para a fortaleza de São José da Ponta Grossa |
São José da Ponta Grossa | 1740 | Em uso para fins turísticos | Na porção noroeste da ilha de Santa Catarina, a aproximadamente 25 km do centro principal da cidade |
Santo Antônio (Ilha de Ratones Grande) | 1740 | Em uso para fins turísticos | Na ilha de Ratones Grande, junto a costa noroeste da ilha de Santa Catarina, fazendo a triangulação com as fortalezas de São José da Ponta Grossa e de santa Cruz |
Nossa senhora da Conceição (ilha de Araçatuba) | 1742 | Área de poder do exército não é aberta à visitação | Na ilha de Araçatuba, ao sul da ilha de santa Catarina |
São Luiz da Praia de Fora | 1771 | 1839 | No bairro Praia de Fora, na porção central da costa oeste da Ilha de Santa Catarina, hoje parte do centro urbano principal (Beira Mar) |
Bateria de São Caetano | 1765 | Restam apenas ruínas que podem ser visitadas | Localiza-se a 100 metros a leste da Fortaleza de São José da Ponta Grossa, na costa noroeste da Ilha de Santa Catarina |
São Francisco Xavier | 1761 | 1841 | Localiza-se no bairro da Praia do Fora, na porção central da costa oeste da Ilha de Santa Catarina, hoje parte do centro urbano principal (Beira mar norte) |
Santa Anna do Estreito | 1761/1765 | Em uso (funciona como museu militar) | Localiza-se junto a cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz |
Santa Bárbara da Vila | Anterior a 1786 | Atual sede da Fundação Franklin Cascaes | Localiza-se no centro urbano principal da Ilha de Santa Catarina, próximo à praça central, construído sobre uma pequena ilhota. |
São João | 1793 | 1880 | Localiza-se no ponto de maior aproximação com a Ilha de Santa Catarina, junto a cabeceira continental da Ponte Hercílio Luz |
Após a elevação de Desterro à Vila, deu-se início o processo de colonização efetiva da região. A emigração de colonizadores nos períodos de 1748 a 1756 promoveu novo impulso econômico e populacional, agindo principalmente nas atividades ligadas à agricultura de subsistência, construção naval e portuária. Não se limitou a ocupar somente a ilha, mas também comunidades como a Freguesia de São José da Terra Firme e da Enseada do Brito, no continente (RIEDERER, 2002 p.374).
Nesse contexto de colonização do Brasil Meridional, encontrou-se suporte para a assinatura do Tratado de Madri, firmado entre D. João V, de Portugal, e D. Fernando VI, da Espanha, em 13 de Janeiro em 1750 (PEREIRA, 2002). O Tratado de Madri tinha como objetivo substituir o Tratado Tordesilhas, o qual já não era mais respeitado na prática. Pelo novo tratado, ambas as partes reconheciam ter violado o de Tordesilhas na Ásia e na América e concordavam que, a partir de então, os limites deste tratado se sobreporiam aos limites anteriores. As negociações basearam-se no chamado Mapa das Cortes, privilegiando a utilização de rios e montanhas para demarcação dos limites. O diploma consagrou o princípio do direito privado romano do uti possidetis, ita possideatis (quem possui de fato, deve possuir de direito), delineando os contornos aproximados do Brasil de hoje.
Em 1823 Desterro foi elevado à categoria de Capital da Província de Santa Catarina, começando um momento de prosperidade devido aos investimentos na construção de prédios públicos, a melhoria do porto e a infra-estrutura urbana. Poucos anos depois, em 1829, foi criada a primeira Colônia Européia de Santa Catarina, com a instalação da Colônia de São Pedro de Alcântara, que contou com a colonização de imigrantes alemães (PEREIRA, 2002).
A partir do crescimento populacional e da elevação de Desterro à sede da capitania, a vila torna-se o principal núcleo econômico do litoral catarinense no ano de 1796. Enquanto Laguna e a Vila de São Francisco caminhavam mais lentamente.
Dos Engenhos e Fábricas de toda a Qualidade: Desterro – fábrica de açúcar-12, engenhos de aguardente – 23, engenho de mandioca – 87 atafonas de moer trigo – 17, curtumes de couro – 9. Laguna – engenhocas de aguardente – 13, engenhos de mandioca – 62, atafonas de moer trigo – 8, curtumes de couro – 1. Vila do Rio de São Francisco – engenhos de mandioca – 14, engenhos de açúcar – 19, (...) embarcações: Desterro – bergantins – 2, sumacas – 3, lancha de coberta – 2. Laguna – peques – 1, sumacas – 4, lancha de coberta – 4. Vila de São Francisco – sumacas – 2. (..) Embarcações que entram nos portos das vilas no ano de 1796: Desterro – navios de 3 mastros – 2, corvetas – 9, bergatins – 16, sumacas – 60, lanchas – 22, embarcações estrangeiras arribadas – 7, total de 116. Laguna – bergantins – 1, peques – 1, sumacas – 14, lanchas – 20, total – 36. Vila do Rio São Francisco – sumacas – 10, lanchas – 3, total 13. (...) No tocante a lojas de oficio, tem-se no referido ano: Desterro – alfaiates – 8, sapateiros – 19, barqueiros – 4, ferreiros – 4, marceneiros – 2. Serralheiros – 1, tanoeiro – 1, funileiro – 1, pintores – 1, casas de pasto – 2, curtume de couro – 6, boticas – 2. Laguna – alfaiates – 4, sapateiros – 3, curtume de couro – 1, boticas – 1. Vila do Rio São Francisco – alfaiates – 7, sapateiros – 3, ferreiros – 6, tanoeiros – 1, curtumes de couro – 1 (FARIAS, 1998 p.258)
Desterro foi elevado à categoria de cidade pelo decreto imperial de 24 de fevereiro de 1823. Contudo, a resistência exercida por Desterro contra a República promoveu o isolamento e um período de estagnação pela redução dos investimentos federais, que estabeleceu até a primeira metade do século XX (CAMPOS, 2002).
No ano de 1898 a construção do Mercado Público marcou Desterro, que passa a chamar-se Florianópolis em 1895, em homenagem ao presidente militar Floriano Peixoto. A partir desse período, inicia-se o desenvolvimento econômico e social da ilha, que investiu na fabricação de produtos agrícolas, pesqueiros e artesanais realizando a exportação para toda a região. A construção da Ponte Hercílio Luz entre 1920 e 1930 também foi um marco para o desenvolvimento da Ilha, e abriu portas para a comercialização, facilitando o transporte. Esses primeiros investimentos em infra-estrutura contribuíram economicamente para a região, tornando Florianópolis um importante pólo econômico regional (RIEDERER, 2002).











Figura 11: Inicio da construção da Ponte Hercílio Luz na década de 1920. Fonte: Construção Ponte Hercílio Luz, 2014.

Além de beneficiar toda a região litorânea do Estado de Santa Catarina, o sistema ferroviário implantado na região sul do Brasil privilegiou também a região serrana, fazendo ligações com o Porto de São Francisco, da mesma forma que os eixos rodoviários na década de 1950, com a construção da BR–116. Ligadas a essa nova fase de fluidez no desenvolvimento econômico da região sul e, consequentemente de Florianópolis, foi realizada a pavimentação da BR–101 na década de 1960 e a construção da Ponte Colombo Salles, que consolidaram o desenvolvimento econômico da região (RIEDERER, 2002).
No ano de 1944, em acordo com o município de São José, o Distrito do Estreito foi incorporado a Florianópolis. Com esta decisão, os limites entre Estreito, incorporando Florianópolis, passaram a ser no rio Araújo ao sul, garantindo à capital as terras do continente onde hoje se localizam os bairros Capoeiras, Coqueiros, Estreito, Jardim Atlântico, Vila de São João e Monte Cristo (FARIAS, 1998).
O município de Florianópolis é considerado um grande depositário de cultura de base açoriana, visivelmente impregnada na população nativa da ilha. Apesar da grande quantidade de moradores vindos de fora da região, a ilha possui as tradições de base açoriana incorporadas, principalmente, na forma de falar, gastronomia, arquitetura, pesca artesanal, artesanato e na própria fisionomia da população da ilha.
4.2. COLONIZAÇÃO DA ILHA DE SANTA CATARINA
O maior fluxo migratório que ocorreu no sul do Brasil foi na segunda metade do século XVIII, com os açorianos, e século XIX, com alemães, italianos, poloneses e libaneses. As imigrações e as levas de migrações açorianas tiveram como objetivo a povoação do território sul, principalmente da região próxima à Ilha de Santa Catarina.
4.2.1 Colonização Açoriana
As primeiras levas de imigrantes açorianos chegaram a Santa Catarina nos séculos XVII. A colonização para o sul do Brasil é fruto de um plano português que visava atender aos interesses militares de defesa de território. A imigração açoriana influenciou na miscigenação étnico-cultural da Ilha de Florianópolis. As identidades culturais regionais representam valores específicos de uma cultura ampla, em que se integram tradições, línguas, costumes e imaginários diversos em um único espaço.
O processo de colonização açoriana na região de Desterro, assim como em toda Santa Catarina deu preferência ao alistamento nos Açores para a vinda de casais jovens, que trouxessem, além de sua força de trabalho, a viabilidade de casarem e terem filhos, o que daria continuidade ao processo de formação do povoamento. Os primeiros núcleos que se formaram no Estado foram o da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, da Enseada de Brito, em Palhoça, São Miguel, em Biguaçu e Santo Antonio de Lisboa, em Laguna (MOTTA, 2011).
Vários fatores levaram à migração dos açorianos para o Brasil. O mais aplausível se refere à densidade demográfica nas ilhas dos Açores. De acordo com Mattos e Silva (2012), o crescimento acelerado da população gerou um desconforto econômico e social, pois o que se produzia nas ilhas não era suficiente para a subsistência e exportação, o que causou um grande desequilíbrio socioeconômico. Mattos e Silva (2012) argumentam que:
Os motivos para estas vagas migratórias são diversos. A situação geográfica instável do arquipélago, com ocorrência de atividades vulcânicas e freqüentes abalos sísmicos, pode ser tida como motivador. Assim como a superpopulação existente nas ilhas, associadas á ausência de reforma agrária e a miserabilidade do povo em geral. A estes fatores de ordem interna, adiciona-se o interesse da Coroa Portuguesa em assegurar posses na América (MATTOS & SILVA, 2012 p.47).
Motta (2011 p.18) também reafirma que:
Os motivos que trouxeram os casais dos arquipélagos dos açores e Madeira foram diversos: o esgotamento do solo das ilhas, superpopulação, aos abalos sísmicos, a falta de ocupação, a fome e a esperança de tornaram-se proprietários de terras. O fato de estar acostumado ao clima e a vida insulares contribuiu para sua boa adaptação na Ilha de Santa Catarina (MOTTA, 2011 p.18)
O alistamento feito a partir de 1746, nas ilhas Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, São Miguel, Santa Maria e Flores, atraíram muitos jovens. A Coroa Portuguesa oferecia benefícios como dinheiro, terras e suprimentos agrícolas, que alimentaram o desejo e a coragem para esses jovens seguirem para o Brasil (FARIAS, 1998).
Os casais açorianos que desembarcaram em Desterro em meados do século XVIII (1748-1757) fizeram parte de um grande projeto da Coroa portuguesa de ocupação sistemática do sul do Brasil. Dessa forma, todos os navios que desembarcavam em Desterro, Laguna e São Francisco, já tinham planejados os destinos de cada um dos imigrantes, elegidos pela Coroa Portuguesa e ordenado pelo representante local em Santa Catarina, o Coronel José da Silva Paes (FARIAS, 1998).
Durante esse procedimento de ordenação dos imigrantes, havia a preocupação de assegurar aos recém moradores catarinenses as condições mínimas de instalação. A Ilha de Santa Catarina e seu entorno continental, até Laguna, foi o espaço selecionado para implantar a base do processo colonizador açoriano do Sul do Brasil (FARIAS, 1998).
Porém, após as primeiras assistências do governo, os imigrantes açorianos foram abandonados à própria sorte e tiveram que se adaptar às condições físicas, sem saber ao certo o que cultivar. As promessas feitas pelo governo português não foram cumpridas. Os açorianos tiveram que lidar com os materiais e subsídios escassos fornecidos pela Coroa Portuguesa (MOTTA, 2010 p.18).
Cada casal de açoriano recebeu um pedaço de terra para começar a trabalhar na lavoura na zona rural. Porém, “o governador Manuel Escudeiro, em 19 de fevereiro de1750, conta ao rei que os recém chegados plantam linho cânhamo, trigo e pinheiros, tal como nos Açores.” Knorst (2011 apud SACHET, 1997 p.87). Se não plantassem a quantia de produtos estipulada pelo governador, recebiam multas e poderiam perder o direito ao uso da terra.
Para dificultar ainda mais a sobrevivência açoriana, a plantação e a colheita foram baixas durante os primeiros anos de colonização. Tudo isso devido à falta de informação e organização do governo português em realizar estudos de viabilidade agrícola, pois muitas plantas que eram cultivadas nos Açores não se adaptaram à região sul do Brasil. Diante desse erro de planejamento, muitos imigrantes, descontentes com a baixa produção, viram que o problema não estava na terra, mas no que se plantava. O convívio com os nativos indígenas foi primordial nesse processo, pois esses grupos dominavam a agricultura de subsistência e tinham o domínio sobre alguns produtos. Lançados ao desafio por necessidade, os açorianos abandonaram as culturas já conhecidas por eles e se adaptaram a outros tipos de plantações, sendo a mais expressiva a mandioca (KNORST, 2011 p. 203).
Cultivavam, principalmente, feijão, milho, batata, café, cana e mandioca. Esta última passou a ser substituída pela cultura do trigo, comum nas ilhas dos Açores, que era consumida com melado, café, peixe ou carne seca. Contudo, além de seu papel na subsistência da população litorânea, a farinha de mandioca passa a ser consumida pelas tropas e pelas embarcações que ancoravam na região (MOTTA, 2010).
Como reflexo à adaptabilidade alimentícia dos açorianos à mandioca, surgem na região os engenhos de farinha, que tinham papel fundamental no beneficiamento da mandioca. De acordo com Farias (1998), basicamente todas as famílias possuíam seu próprio engenho. As que não possuíam plantavam a mandioca e a beneficiavam em parceria em engenhos de outras pessoas.
Os engenhos de farinha foram as primeiras unidades semi-industriais criadas no Sul do Brasil. Resultaram da aplicação da tecnologia dos moinhos de trigo utilizados no arquipélago dos Açores. A sua introdução revolucionou os processos de produção até então utilizados, além de melhorar qualitativamente o produto. A importância dos engenhos de farinha foi tão grande nas atividades econômicas do atual Estado de Santa Catarina, que em 1.796, para uma população de 23865 habitantes, existiam 884 engenhos. Na mesma época a freguesia da Lagoa possuía 101 engenhos e uma população de 1.916 habitantes, com 329 famílias, resultando numa média de um engenho para cada 3,12 famílias (FARIAS, 1998 p.249).
Knorst (2011 apud SACHET, 1997 p.88) relata a vida dos imigrantes açorianos em Santa Catarina como:
A lua-de-mel colono/açoriano/terra catarinense dura pouco. Após tentativas de gerar o fruto esperado, a terra fica sozinha no “cítio”. E o ex-imigrante corre para cidade, que o espera de ruas abertas. Desde antes da chegada dos açorianos, o “boa-vida” que vive no desterro é uma decepção para o estrangeiro que aportava na Ilha.
O povoado açoriano contribuiu politicamente para as forças portuguesas, já que os primeiros políticos catarinenses são de origem açoriana. Isso incentivou a instalação de freguesias e a valorização da sociedade e cultura açoriana (KNORST, 2011).
Dentre os aspectos originais da cultura de base açoriana na Ilha de Florianópolis destacam-se: a renda de bilro, o boi-de-mamão, a cantoria do divino Espírito Espírito Santo, os Ternos de Reis (Natal, Ano Bom e São Sebastião), a gastronomia e os engenhos de farinha (FARIAS, 1998).
Piazza (1994 p.74) enfatiza que:
No elenco de manifestações da cultura açoriana ainda subsistentes no litoral catarinense alinham-se as técnicas de pesca, o folguedo do “boi-na vara”, o carro – de - boi, a olaria de cerâmica utilitária e decorativa, a “renda de bilro”, os “pão-por-Deus” – como manifestações de literatura e de arte decorativa.
Os troncos familiares mais numerosos que vieram para Santa Catarina foram: Farias, Machado, Pires, Pereira, Matos, Bittencourt e os originários das ilhas do arquipélago central: Terceira, São Jorge, Faial e Graciosa. Foram eles: Aguiar, Álvares, Alves, Albernas, Andrade, Anjos, Antonia, Assunção, Baptista, Bernardo, Borba, Cabral, Coelho, Cardoso, Corrêa, Costa, Cunha, Fernandes, Duarte, Francisco, Fonseca, Gonçalves, Jesus, Lima, Lourenço, Rocha, Pereira, Vieira, Silva, entre outros (FARIAS, 1998).
Historicamente, o território catarinense foi cenário de lutas entre nativos e brancos que resultaram na expansão do território. O processo de colonização de Santa Catarina configurou-se como uma mistura de povos e de culturas. Portanto, retratar as relações sociais e socioculturais dos povos catarinenses implica conhecer a perspectiva histórica que orienta os saberes de quem habitou ou ainda habita o estado catarinense.
4.2.2 Colonização alemã
Na ilha de Santa Catarina estiveram presentes, além dos açorianos, outros povos vindos da Europa, motivados por promessas que os fizeram embarcar em navios, submetendo-se a situações precárias e tentar vida nova em terras desconhecidas. Entre eles, têm-se os alemães, oriundos de várias partes da Europa, pois na época não se tinha a Alemanha constituída como Estado nacional. Nesse contexto, consideramos alemão todos os povos que falavam a língua germânica, incluídos suíços e austríacos.
Os conflitos na Europa durante o século XIX, ocasionado pelas disputas espanholas para substituir a mão-de-obra escava, entre outras agitações políticas e econômicas, fez com que no ano de 1824 e 1924 mais de 60 milhões de habitantes emigrassem. Entre os anos de 1824 e 1919 foram os alemães quem aportaram em Santa Catarina (MOELLMANN, 2002).
Os alemães migraram para o Brasil por diversos motivos. Nos anos de 1816 e 1817 a situação da região, na atual Alemanha, era marcada pela pobreza e falta de oportunidades. Os governos não conseguiam auxiliar e amparar a população (SPINASSÉ, 2008).
Esse momento de crise dos alemães foi ao encontro dos interesses do Brasil. O Brasil estava quase se tornando independente e precisava de alternativas à mão-de-obra escrava. Outro motivo que levou o governo do Brasil incentivar a vindas de imigrantes foi a necessidade que D. Pedro tinha de formar um exército com soldados europeus, pois Portugal não havia reconhecido a independência da antiga colônia. Esta atitude, segundo o imperador, serviria como resistência armada para o caso de invasão (SPINASSÉ, 2008).
Movidos por esses pretextos, o governo brasileiro criou, em 1818, a Inspetoria de Colonização Estrangeira, responsável por fazer propaganda sobre o Brasil, principalmente nos estados alemães e na Suíça. Foi através dessa propaganda que muitos imigrantes se aventuraram em terras brasileiras (SPINASSÉ, 2008).
As propagandas resultaram na emigração principalmente de suíços, dirigidos à região de Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro nesse primeiro ano. Nessa região houve a dispersão dos imigrantes. Em seguida, no sul da Bahia, foi fundada a primeira colônia alemã, denominada Leopoldina, em homenagem à Arquiduquesa Leopoldina, filha do imperador da Áustria. Porém, ao chegarem ao Brasil, os imigrantes tiveram a mesma decepção que os açorianos tiveram. Os vastos campos prometidos, com casas, animais, sementes e árvores frutíferas não existiam (SPINASSÉ, 2008). O que eles tiveram que enfrentar foi uma mata nativa repleta de índios e uma terra desconhecida já habitada. Obviamente, tudo isso gerou conflitos diretos entre colonos e indígenas. Para Iraci Galvão Salles a política imigratória era:
[...] dirigida no sentido de buscar no trabalhador branco europeu a redefinição do ato do trabalho e a concepção do trabalho como essência da construção do progresso da Nação. O sistema escravista e a sua expressão – o escravo - eram sempre colocados como os opositores ao progresso, como representantes do atraso da Nação. Ao colocar no mesmo plano, imigrante e progresso, como algo a ser transplantado de fora para dentro, o negro aparece, também mecanicamente, como elemento a ser apagado da memória (SALLES, 1986 p.17 apud SPINASSÉ, 2008).
Em 1828, aportaram, em Santa Catarina, as embarcações denominadas Luísa e Marquês de Viana, trazendo da Armação de São Domingos, em Niterói, a primeira leva de imigrantes alemães vindos da Renânia. Os imigrantes que vieram no Marques de Viana foram encaminhados aos quartéis de Desterro. Os que vieram na embarcação Luisa, por terem chegado doentes, foram enviados para Armação da Lagoinha e instalados em abrigos onde havia hospital (MOELLMANN, 2002 p.1).
Na Lagoinha, os colonos aguardaram cerca de um ano para serem enviados para São Pedro de Alcântara. Entre os imigrantes que estavam alojados na Lagoinha, 14 deles decidiram ficar em Desterro, no ano de 1829. Outra leva de colonos teve que aguardar em São José até serem remanejados para São Pedro de Alcântara (MOELLMANN, 2002 p.122).
Enquanto esperavam o remanejamento, os imigrantes relatavam a situação pela qual passavam:
“Acabado o dinheiro, começaram a vender roupas e não tardou que a maior parte desses infelizes andassem andrajosos, mostrando pústulas e buracos nas pernas e braços, sarnentos, a perambular como espectros e a mendigar pelas ruas da cidade. Que impressão dolorosa devia suscitar nos outros alemães semelhante espetáculo de horror! Mas os soldados alemães do exército imperial viviam só do seu magro soldo, pouco ou nada podiam ajudar a seus patrícios que sofriam sem culpa. Antes de decorridos os seis meses que aqueles colonos deviam passar inativos na Vila de Desterro, a pobreza crescera tanto que muitos pais incapazes de sustentar os filhos, os ofereciam publicamente e sentiam-se felizes se alguém quisesse ficar com uma menina forte ou um rapaz esperto, só pela comida. Uma vez ou outra famílias brasileiras ricas adotavam crianças alemãs” (MOELLMANN, 2002 p.125).
Várias foram as colônias fundadas posteriormente onde hoje se localiza a região da Grande Florianópolis: Santa Isabel (1847), Leopoldina (1852) e Teresópolis (1860). Em seguida, muitos imigrantes voltaram a morar na capital, motivados pelas facilidades, pois o interior de Santa Catarina era considerado um local inóspito, habitado pelos nativos e com muita mata fechada. Descendentes de origem alemã que vivem na Ilha encontram-se com sobrenomes açorianos devido à grande miscigenação. Contudo, os aspectos físicos dos imigrantes encontram-se presentes, mas muitos deles desconhecem sua antecedência.
4.2.3 Colonização italiana
São poucos os registros relativos à imigração italiana em Florianópolis. No final do século XIX, verificam-se relatos de uma colônia de italianos citada por Caruso Mcdonald, em 1906. Segundo relato, essa colônia começou a se desenvolver na segunda metade do século XX, contando com imigrantes italianos oriundos de cidades como Blumenau, Brusque e Joinville (CURI, 2002).
Porém, os imigrantes italianos começaram a chegar à região sul do Brasil significativamente a partir de 1870. Desembarcavam nos portos de Itajaí ou de Desterro e tomavam o rumo para colônias localizadas em Brusque (DM & PV, 2014).
Considera-se como um dos maiores impulsionadores da imigração italiana a própria crise socioeconômica ocorrida no norte da península itálica, afetando a propriedade da terra. Muitos italianos que vieram para Santa Catarina eram originários do norte da Itália, conhecida como o “Trentino”, que tem ponto central na cidade de Trento (DM & PV, 2014).
No ano de 1836, os italianos deram inicio à segunda colônia de imigrantes que se instalou em Santa Catarina, situada às margens do rio Tijuca. A primeira colônia italiana, denominada colônia Nova Itália (atual São João Batista), teve muitas dificuldades e não sobreviveu por muito tempo. Em seguida, os imigrantes se dirigiram a duas áreas de colonização, Brusque e Blumenau, partindo em grupos para regiões do interior visando fundar colônias (MACAGNAN, 2014).
Assim, a partir das primeiras décadas do século XIX, Santa Catarina foi palco de um novo fluxo de imigrantes europeus, que povoaram o interior da província e incentivados pelo governo imperial. Tinham, como objetivos, povoar as terras, tomadas por índios e caboclos, promovendo a política de “branqueamento” (MOTTA, 2011).
Os imigrantes que vinham para o Brasil nesse período visavam trabalhar na lavoura, desbravando, principalmente, o interior do Estado de Santa Catarina. Contudo, os que ficaram em Desterro, ou em regiões próximas, dedicavam-se a outras atividades, já que na Ilha a as terras já estavam sendo habitadas pelos açorianos que desenvolviam, principalmente, a pesca artesanal e agricultura de subsistência.
4.2.4 Colonização polonesa
O processo de imigração polonesa em Santa Catarina também teve como propulsores as grandes mudanças políticas e econômicas ocorridas na Europa durante os séculos XVI e XVII. Esse progresso de transformações na região da Polônia é decorrente do capital trazido pelos judeus, que, expulsos da Espanha e de Portugal, foram aceitos pela Polônia e Holanda (SOBIERAJSKI, 2002).
No século XVIII, no entanto, começou a grande expansão russa em direção ao ocidente, com o reinado do Tzar Pedro, o Grande. Nessa época a Polônia perdeu parte dos seus territórios para os russos. Foi um período de grande instabilidade em que as fronteiras eram traçadas e retraçadas ao sabor dos interesses, notadamente, da França, Suécia e Rússia. [...] Durante o século XIX, os poloneses deixaram de existir como nação. A Prússia ficou com o litoral do Mar Báltico, o império austro-húngaro com o sul, e a Rússia com o leste, incluindo Varsóvia. A divisão e o desaparecimento da Polônia contaram com o apoio aberto da burguesia nacional, em sua maior parte de origem estrangeira e fascinada com a possibilidade de obter lucros através da associação com o regime tzarista russo (SOBIERAJSKI, 2002).
O século XIX foi marcado pela industrialização, principalmente na Inglaterra e na Alemanha, e a oferta de terras novas na América. Esse último fator, aliado à necessidade de mão-de-obra, fez da América o lugar perfeito para começar uma nova vida. Nesse período muitos poloneses vieram para o Brasil fugido da fome, da instabilidade política, da dominação estrangeira e das perseguições político-militares (SOBIERAJSKI, 2002).
Porém, os três Estados do sul do Brasil foram os principais receptores dos poloneses. Nesse período o império brasileiro, através da Lei Áurea, libertou os negros do regime de escravidão e perdera a mão-de-obra utilizada na agricultura. Muitas pessoas e famílias integrantes dos povos europeus, inclusive poloneses, interessados em imigrar para o Brasil, se declaravam agricultores e alguns nunca tinham exercido a atividade agrícola (SOBIERAJSKI, 2002).
Esses grupos de imigrantes que chegaram no século XVIII e início do século XIX, foram alocados em áreas rurais. Em Santa Catarina, o principal destino foi o norte do Estado, onde atualmente localizam-se os municípios de Porto União, Mafra e São Bento do Sul. No litoral, os assentamentos foram erguidos onde hoje se localizam os municípios de Guaramirim, Massaranduba e Major Gercino. Ainda foram assentados poloneses no sul do Estado, na região de Criciúma. Os descendentes de poloneses que moram em Florianópolis são oriundos de imigrações internas, oriundos de cidades localizadas no norte de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Muitos deles não estavam preparados para desbravar terras e desenvolver a agricultura (SOBIERAJSKI, 2002).
Assim, como os italianos, os poloneses vieram para o antigo Desterro (atual Florianópolis) em busca de novas oportunidades longe da agricultora, desenvolvendo, principalmente, o comércio e demais atividades urbanas.
4.3 ASPECTOS CULTURAIS DE FLORIANÓPOLIS
Nas últimas décadas do século XX verificou-se, por conta de múltiplos fatores ligados à globalização, uma crescente transformação nos padrões sócio-culturais dos habitantes de Florianópolis e demais cidades vizinhas. Essas modificações produziram um distanciamento da cultura de base açoriana, anteriormente muito presente nas tradições e identidade social desse povo.
Geertz (1989) afirma que os modos particulares de uma sociedade são constituídos socialmente ao longo do tempo, sofrendo mudanças que entrelaçam os indivíduos em sua sociedade, colocando-os como um animal suspenso por teias de significação que ele mesmo teceu. Assim, entende-se que o conceito de cultura, como estrutura, é fundamental para compreender os conflitos entre grupos heterogêneos convivendo em determinado espaço.
Felizmente, há em Florianópolis um importante aliado na preservação da cultura de base açoriana, o Núcleo de Estudos Açorianos (NEA) da Universidade Federal de Santa Catarina, criado em 1984 e reestruturado em 1992. Atualmente, além de realizar pesquisas e investigações sobre a cultura açoriana no Estado, desenvolve trabalhos comunitários que atingem todo o litoral de Santa Catarina com cursos, palestras, mapeamento cultural e reciclagem para professores. Durante sua atuação foi criada a Festa da Cultura Açoriana, que divulga a autêntica herança cultural (UFSC, 2014).
A manifestação da cultura de base açoriana em Florianópolis está presente nas confecções das rendas de bilro, na religiosidade, benzeduras, modo de falar, culinária, pesca artesanal, histórias e mitos, nas praças, nas construções residenciais e comerciais antigas e os fortes, que demonstram o poderio militar de Desterro, além das belas praias que cercam a ilha.
4.3.1 Manifestações populares religiosas e folguedos ainda presentes em Florianópolis
Para Melo (1974), a expressão “cultura popular” é repleta de conexões com a realidade social do passado, refletida, principalmente, na camada da sociedade considerada subalterna, que imprime sua opinião e sua representação através de seu modo de vida próprio.
Do mesmo modo, a religiosidade impregnada na cultura popular refere-se à condição humana de ser religioso. O homem percebe o sagrado, através de manifestações diferentes do profano. A manifestação do sagrado indica a sacralização de todo objeto e transforma qualquer coisa em outra coisa, qualquer ser em outro ser, estabelecendo uma ordem distinta em toda relação com o mundo. Dessa maneira, a referência do sagrado posiciona o homem diante de sua própria existência e contribui para um universo de relações e (re)significados (FURLANETTO, FILIZOLA, 2012).
Entre os descendentes de açorianos do litoral catarinense desenvolveram-se diversos elementos ligados à religiosidade, herança da cultura popular dos Açores. As festividades religiosas podem ser vistas como as que mais se preservam em meses específicos do ano, dando sentido e revigorando muitas comunidades. Essas manifestações estão presentes em Florianópolis, principalmente em comunidades mais tradicionais.
Antigamente, as manifestações natalinas tinham início no dia 6 de dezembro e terminavam no dia 6 de janeiro. No mês de outubro, ofertava-se o pão-por-Deus; em dezembro, montava-se o presépio, saíam os ternos de Natal, além da festa principal, onde se comemora o Natal em família. No mês de janeiro era dada a continuidade às festividades religiosas através dos ternos de Ano Novo, de Reis, São Sebastião e Santo Amaro, além das manifestações profanas como o boi-de-mamão, pau-de-fita, brincadeiras de mascarados, entrudos, que se prolongavam até o início da Quaresma, data móvel, que começa após a quarta-feira de cinzas (FARIAS, 1998 p.306).
• Boi de mamão
O Boi-de-mamão é uma dança que envolve cantoria em torno do tema cristão da morte e ressurreição. Utiliza-se a figura do boi como um ser que ressuscita. Esta forma de expressão, também conhecida como brincadeira do boi, é encontrada em várias partes do país e recebe diferentes nomes, mas com a mesma mensagem. No Nordeste do Brasil, por exemplo, ela é conhecida como "Bumba Meu Boi" ou "Boi Bumbá" (VIVO NUMA ILHA, 2008).
Antigamente, no litoral catarinense, a brincadeira era conhecida como "Boi de Pano". Porém, conta-se que esse nome se devia a forma de confecção do boi, que era feito de pano. Certa vez, com a pressa de confeccioná-lo para a brincadeira, utilizaram um mamão verde para fazer a cabeça do boi. Desse dia em diante, o nome da brincadeira passou a ser chamada Boi-de-mamão (VIVO NUMA ILHA, 2008).

• Terno de Reis
A manifestação do terno de reis é bastante popular no litoral de Santa Catarina e faz parte de uma das formas de expressão realizadas pela comunidade católica em comemoração ao ciclo natalino. Em Florianópolis, a manifestação ocorre na segunda quinzena de dezembro. Nesse período, os grupos iniciam as visitas às casas da comunidade, anunciando o nascimento do Menino Jesus, seguindo até o dia 6 de janeiro (DEOLHOILHA, 2014).
Essa tradição popular está associada ao número 3, que representa os Reis Magos (Melchior, Gaspar e Baltazar) que seguiram a Estrela Guia até Belém, em busca do filho de Deus. Nesse episódio do cristianismo, os três reis magos oferecem a Jesus três presentes: ouro, incenso e mirra. Durante a apresentação, a representação é marcada por três momentos: chegada, anúncio e despedida do grupo da residência que visita. Ainda dentro dessa concepção da trindade, devem ser compostos por um trio de instrumentistas e cantadores que improvisam versos e trovas, fazendo menção a Jesus Cristo (DEOLHOILHA, 2014).

• Dança do Pau-de-Fita
O Pau de Fitas é uma tradição em Florianópolis e consiste em uma dança em torno de um mastro. À medida que a dança se desenvolve, o mastro fica colorido e enfeitado pelas fitas que os dançarinos seguram. É uma dança comum em várias partes do mundo. Tem-se registro de sua origem em Santa Catarina por colonizadores açorianos e espanhóis.

Além dessas manifestações, verificam-se na Ilha de Santa Catarina as festas de culto. A Festa do Senhor dos Passos e a Festa do Divino Espírito Santo podem ser consideradas as mais expressivas e revelam a forte demonstração de fé dos descendentes de açorianos. Em Desterro, o início do culto ao Senhor dos Passos remonta ao ano de 1765. Segundo se conta, a imagem aportou em Desterro, com destino ao Porto dos Casais, hoje Porto Alegre. Esta Imagem foi esculpida na Bahia por Antonio das Chagas. Porém, de acordo com a tradição oral, toda a vez que o barco tentava zarpar do porto de Desterro, formava-se forte tempestade, impedindo-o de seguir viagem. A população interpretou como sendo um sinal de que o santo desejava ficar em Desterro. Diante do acontecido, a vila reuniu-se e criou a Irmandade do senhor Jesus dos Passos. Essa mesma história encontra-se ligada a cidades como Imaruí e Laguna, que também possuem a imagem do Senhor dos Passos, sendo a data mais antiga desse episódio verificada em Florianópolis (FARIAS, 1998).
As festas religiosas representavam o momento de confraternização e negócios nas comunidades em clima de cordialidades e muita fé. Entre os século XVIII e XIX a igreja católica era absoluta nas relações sócio – culturais – religiosas, principalmente nas comunidades rurais brasileiras. O religioso e o profano se cruzavam. Em alguns casos se fundiam para formar um conjunto sociocultural harmônico em torno da igreja (FARIAS, 1998).
Enfim, as festas religiosas mais expressivas de Florianópolis continuam sendo a Festa do Senhor dos Passos e a Festa do Divino Espírito Santo. O pagamento de promessas por graças alcançadas, em espécie, vestindo-se com trajes especiais ou mesmo transportando objetos durante as procissões, transforma-se no símbolo de fé e devoção praticadas naturalmente pelos fiéis (FARIAS, 1998).
• Festa do Divino Espírito Santo
Tradicionalmente, a festa do Divino Espírito Santo é comemorada cinqüenta dias após a Páscoa e faz parte das celebrações de Pentecostes. A festa faz parte de uma celebração religiosa, profana e folclórica. Como parte da manifestação, faz-se alusão à bandeira do divino, a coroa, o cetro e salva; as cantorias, promessas, folguedos populares, novenas e o auge do festejo que consiste na procissão da corte imperial e coroação do Imperador (NUNES, 2010 apud PREFEITUA MUNICIPAL, 2014).
Em Florianópolis, a saída da Bandeira do Divino pelas ruas anuncia o início do ciclo festivo e é acompanhado pela rabeca, viola e tambor. A tradição de mais de dois séculos é composta por desfile de cortejos imperiais e representações de 15 comunidades de Florianópolis. Segundo o historiador Sergio Ferreira, o elemento representativo dos festejos, ao contrário dos Açores, onde a coroa é o símbolo mais forte da festa, aqui é representado pela bandeira. O ciclo do Divino Espírito Santo em Florianópolis foi criado em atenção à Lei Municipal nº 8010/2009, que instituiu o Dia Mundial de Abertura das Festividades do Divino Espírito Santo. O calendário abrange as 13 festividades realizadas de maio a setembro e as atividades culturais de lançamento e encerramento (JORNALSC, 2014).


• Procissão do Senhor dos Passos
A Festa do Senhor dos Passos é uma das festas religiosas mais tradicionais de Santa Catarina. Presença forte em cidade do sul do Estado, ela representa a fé e a história de Florianópolis. A imagem na Ilha é esculpida em tamanho real e tem o joelho esquerdo apoiado no chão com a cruz sobre o ombro, representando a primeira queda de Jesus a caminho do Calvário. A túnica que veste a imagem é de tecido roxo, decorada com bordados dourados. No rosto escorrem suor e sangue, provocados pela coroa de espinhos que prendem os cabelos (O CAMINHO DO SENHOR DOS PASSOS EM FLORIANÓPOLIS, 2014).
A procissão é Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina e está com um processo em andamento para que seja registrada como Patrimônio Cultural Brasileiro. Após a procissão, as réplicas da imagem são recolhidas e a imagem original fica exposta durante todo o ano na Capela Menino Deus (O CAMINHO DO SENHOR DOS PASSOS EM FLORIANÓPOLIS, 2014).


4.3.2 Gastronomia
A base da gastronomia típica de Florianópolis enquadra-se culturalmente na alimentação influenciada pelos hábitos culinários dos antigos moradores, descendentes de açorianos que habitaram a região.
Contudo, Uggioni (2006 p.44) lembra que “nem sempre tudo que é considerado como típico faz parte do cotidiano dos indivíduos” e de determinado grupo social. Para enfatizar essa afirmativa a autora traz a explicação de Maciel (2001 apud UGGIONI, 2006 p.44), que afirma:
A constituição de uma cozinha típica vai assim mais longe que uma lista de pratos que remetem ao “pitoresco”, mas implica no sentido destas práticas associadas ao pertencimento. Nem sempre o prato considerado típico, aquele que é selecionado e escolhido para ser emblema alimentar da região é aquele de uso cotidiano. Ele pode, sim, representar o modo pelo qual as pessoas querem ser vistas e reconhecidas.
A colonização de Santa Catarina teve início no século XVI. Formaram-se três núcleos antigos de ocupação luso-brasileira, denominada por São Francisco do Sul e Laguna. Porém, antes dos europeus chegarem às terras catarinenses, havia aqui os indígenas da nação tupi-guarani. (UGGIONI, 2006).
O processo de construção da gastronomia de um país colonizado é complexo e implica em preferências e exclusões. Dentro dessa composição da culinária, tem-se o deslocamento cultural refletido nos hábitos, costumes, e necessidades alimentares dos imigrantes, incluindo plantas, animais e temperos. Analisando este cenário percebe-se que a gastronomia tradicional de Florianópolis é composta de diversas referências culturais herdadas dos açorianos, como o peixe assado e frito, ensopados, inhames e couves, cozidos de carne e verduras, massa sovada de mandioca, arroz doce e do indígena com a mandioca, beiju, cuscuz de milho, pirão, pamonha e milho. Sendo misturada a culinária de outros povos que habitaram a região, são eles: os vicentistas, portugueses continentais, italianos e alemães (UGGIONI, 2006).
Antonini (2003 apud UGGIONI, 2006) salienta que atualmente a gastronomia de Florianópolis está misturada. Não há uma “Gastronomia Açoriana na Ilha de Santa Catarina”, mas diversas matérias-primas da própria ilha que foram incorporadas. Isso é resultado da miscigenação das culturas que habitaram a região e produziram uma gastronomia local.
Essa colocação de Antonini é perfeitamente real, pois quando os colonizadores açorianos chegaram à região de Desterro, tiveram que adaptar a cultura de muitos produtos que não eram propícios por aqui. Ocorreu a substituição de muitos produtos presentes na gastronomia dos moradores dos Açores.




4.3.3 Artesanato
A antropologia cultural ocupa-se do estudo das culturas e das formas que assume o comportamento humano nas sociedades organizadas e sua cultura material. Nesse ponto, antropólogos e folcloristas assumem a postura do estudo do artesanato de um povo, relacionando-o com a sociedade em que é feito. Aponta-se que o artesanato se relaciona com uma matriz mítica ou a um sistema socio-cultural autônomo que dão a esses objetos sentidos precisos. Entretanto, deve-se observar que essa construção cultural é multicondicionada (CANCLINI, 1997).
O comércio dos produtos artesanais transforma o artesanato e seu sentido como expressão da tradição e do saber de uma comunidade. A comercialização do produto, muitas vezes, pode exigir padrões estéticos dos objetos, descaracterizando o sentido do artesanato. Diante dessa reflexão, Cascudo (2000 apud HORODYSKI; RUSCHMANN, 2007:24) afirma:
O que caracteriza essencialmente uma cultura não é a existencia de padrões equivalentes aos nossos no espaço e no tempo. (...) uma cultura serve para a sua suficiencia. (...) Assim, a cultura não pode ser equacionada nas regras comparativas e sim, medida e avaliada pela sua substância interior e real.
No município de Florianópolis o artesanato está presente no cotidiano de muitas pessoas, que preservam e valorizam o trabalho. Como um símbolo do município, a confecção das rendas de bilro pode ser considerada uma das artes de renda mais admiradas e valorizadas na ilha.
A renda de bilro está presente em toda a parte do litoral catarinense, de forma mais expressiva em cidades menores onde os idosos ainda a preservam. Sua origem exata é desconhecida. Sabe-se que, em Santa Catarina, sabe-se que veio com os açorianos. É um trabalho composto pelo cruzamento de fios, executado sobre o pique e com a ajuda de alfinetes e bilros (RIOZINHO, 2014).
Desde 2009 o município de Florianópolis obedece um calendário oficial com um dia em homenagem às rendeiras. O dia intitulado é 21 de outubro, data em que no ano de 1747, os primeiros imigrantes açorianos partiram do Porto de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, com destino a Desterro, Santa Catarina (RENDA DE BILRO FLORIANÓPOLIS, 2012).
Para auxiliar na permanência dessa herança cultural, atualmente em Florianópolis verifica-se grupos que se reúnem no intuito de não deixar essa herança cultural se perder, oferecendo aulas de rendas e articulando lugares para a sua comercialização. Florianópolis é a cidade que reúne o maior número de rendeiras do sul do Brasil.
O lançamento do Centro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis, em março de 2010, é uma ação do programa de promoção ao Artesanato de Tradição Cultural, em parceria coma Fundação Cultura de Florianópolis Frankin Cascaes e Casa dos Açores Ilha de Santa Catarina. Essas parcerias tem como objetivo incentivar os grupos de artesãs com investimentos na esfera de produção, comercialização e divulgação do produto e da arte, valorizando essa expressão cultural de base açoriana (RENDA DE BILRO FLORIANÓPOLIS, 2012).
O quadro abaixo elenca alguns grupos que se organizam para produzir e ensinar a arte de confeccionar a renda de bilro. No entanto, sabe-se que muitas pessoas produzem as rendas em casa e não estão ligadas a nenhum grupo espeficifico.
GRUPOS ORGANIZADOS | |
1- Grupo de Artesanato Cantinhoda Amizade Local: Ponta das Canas Responsável: Cristina Neves Fone: 3284-1056 | 2-Grupo Recanto Feliz Local: Rio Tavares Responsável: Aurea Cecília Vidal (Nem) Fone: 3232-0190 |
3-Grupo Esperança Nova Local: Barra da Lagoa Responsável: Maria Rosa de Paulo (Maria do Altamiro) Fone: 3232-3300 | 4-Centro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis Local: Casarão da Lagoa (Centro Cultural Bento Silvério) Responsável: Elita Catarina Ramos Fone: 3232-1514 |
5-Polo: Rendeiras de Sambaqui Local: Associação do Bairro de Sambaqui - ABS Responsável: Maria da Glória Viana Soares Fone: 3235-1485 | 6-Polo: Rendeiras do Pântano do Sul Local: Associação de Moradores do Pântano do Sul Responsável: Melânia Fone: 8829-4150 |
7-Polo: Rendeiras da Fortaleza da Ponta Grossa Local: Praia do Forte Responsável: Marli Francisca da Luz Fone: 3282-0837 | 8-Polo: Rendeiras do Rio Vermelho Local: Conselho Comunitário do Rio Vermelho Responsável: Fernanda Fone: 3269-7710 |
9-Polo: Rendeiras da Armação do Pântano do Sul Local: Praia da Armação Responsável: Leonícia Fone: 3237-5648 |
Fonte: RENDA DE BILRO FLORIANÓPOLIS, 2014




Além da renda de bilro, a produção manufatureira que está ligada à cultura popular ainda sobrevive no dia a dia da população ribeirinha. Apesar do rápido avanço tecnológico, ela ainda preserva a confecção de redes de pesca, canoa de um pau só e cerâmica.
A pesca artesanal é uma atividade exercida pelos primeiros habitantes do litoral de Santa Catarina, também conhecidos como grupos de pescadores-coletores. Os Carijós deram continuidade com os colonizadores açorianos até os dias atuais. Atualmente a pesca artesanal é utilizada como meio de subsistência, sendo muitas vezes a única renda familiar.
A rede é um dos instrumentos mais usados na pesca artesanal. É propulsora para a derivação de vários outros instrumentos como tarrafas, pandorga, rede de cerco, caçamba, jereré, coca, balaio, entre outros. Antigamente, esses artefatos eram confeccionados com a fibra do gravatá, depois se passou a utilizar o barbante e hoje em dia utiliza-se o nylon (DEOLHONAILHA, 2014).


A confecção da cerâmica em Florianópolis também é um dos artesanatos mais tradicionais. A herança da técnica da confecção é de origem açoriana, misturada à forma rudimentar dos índios guarani, que viviam em terra catarinense.
Na região da grande Florianópolis, o município de São José possui maior destaque na confecção das cerâmicas, chegando a exportar seus produtos para diversos locais do Brasil. Isso contribui para que a cerâmica artesanal permanecesse viva no cotidiano da Grande Florianópolis (GUIAFLORIPA, 2014).

Outro grande artesanato produzido na Ilha de Florianópolis é a canoa de um pau só, legado dos índios carijós. A árvore utilizada na confecção da canoa é a garapuvu. A canoa é utilizada para a pesca e é movida a vela e remo. Antigamente, esse tipo de canoa servia para transporte de passageiros e cargas, vendidas no Mercado Público (GUIAFLORIPA, 2014).
A produção da canoa foi uma das razões para a quase extinção da árvore no litoral sul de Santa Catarina, a partir da década de 1950. No entanto, antes da extinção da árvore, o poder público proibiu o seu corte no ano de 1992 (GUIAFLORIPA, 2014).
Atualmente, poucas pessoas ainda confeccionam a canoa. Na ilha, há 10 pessoas que ainda fazem a canoa, sendo denominados os mestres da construção. Esses indivíduos moram em bairros como Sambaqui e Lagoa da Conceição (GUIAFLORIPA, 2014).


4.3.4 Alguns patrimônios arquitetônicos de Florianópolis
A palavra patrimônio pode assumir diversos significados e sua abrangência estava circunscrita diretamente aos bens materiais. No século XVIII, na França se passou a entender como patrimônio os bens que estavam protegidos por lei e pela ação de órgãos especialmente constituídos (SANDOVAL, 2007).
O patrimônio deve ser definido como um bem cultural que desperta o sentimento de valor e identidade e que expressa a própria cultura. Isso se faz necessário pelo crescimento desordenado das cidades, pela especulação imobiliária, por novos valores e estilos de vida, que podem gerar impactos irreversíveis ao patrimônio (SANDOVAL, 2007).
Oriá (2003:133) aponta que:
Patrimônio cultural engloba tanto o histórico como o ecológico, o artístico e o científico. O patrimônio cultural de uma dada sociedade é formado por um tripé indissociável em que se contemplam as seguintes dimensões: a dimensão natural ou ecológica, a dimensão histórica – artística e a dimensão documental. Neste sentido, o próprio meio ambiente, os conjuntos urbanos e os sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico, as obras, os objetos os documentos, as edificações, as criações científicas, artísticas e tecnológicas, as formas de expressão e até mesmo os modos de criar, fazer e viver são bens culturais de uma sociedade e por isso devem ser preservados.
Dessa maneira, é importante salientar que o patrimônio histórico-cultural não é formado apenas por obras raras ou da cultura de um passado distante. Não serve somente para relembrar o passado. A valorização e conhecimento de um bem cultural ajudam a perceber quem é e porque somos assim. Mesmo que muitas vezes, não nos identificamos com eles.
Conhecer os fatos históricos que dizem respeito ao patrimônio proporciona maior compreensão do que é o turismo arquitetônico e cultural. Consequentemente, isso favorece a sua análise. Ao se estimular a valorização dos bens culturais imóveis, entre os quais se incluem os núcleos urbanos, os bens individuais, os sítios arqueológicos e paisagísticos (BARRETO, 2000).
De acordo com Barreto (2000), o legado cultural, tendo como patrimônio as ruínas e os monumentos, tem como objetivo manter a continuidade cultural, agindo como um intermediário entre o passado e o presente. Assim, podemos saber mais ou menos quem somos e de onde viemos, ou seja, que temos uma identidade.
Atualmente, o patrimônio arquitetônico vem assumindo maior valorização na sociedade contemporânea, principalmente no tocante aos aspectos históricos, culturais, estéticos e as contribuições sócio-econômicas decorrentes de seu aproveitamento pelo mercado imobiliário e turístico (SANDOVAL, 2007).
Assim o reconhecimento de suas possibilidades e de sua conseqüente valorização enquanto manifestação da cultura-material dos povos (valor histórico) ou bem de consumo da sociedade (valor econômico)- que se observa quanto ao seu uso tem a perspectiva de suprir necessidades de ordem prática (valor funcional) ou de satisfação da demanda turística (valor atrativo turístico) - freqüentemente apresenta-se como motivadores da sua conservação e/ou preservação (FUCHS, 2003:4).
A proteção do patrimônio cultural nacional é responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No domínio estadual, a proteção ao patrimônio cultural em Santa Catarina é responsabilidade da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e na esfera municipal é responsabilidade da prefeitura da cidade. Em Florianópolis o patrimônio cultural é de responsabilidade do Serviço do patrimônio Histórico Artístico e Natural do Município (SEPHAN).
A Ilha de Santa Catarina foi um dos primeiros núcleos de ocupação do litoral sul do Brasil. Isso permitiu que a cidade estivesse repleta de história a cada esquina. No entanto, algumas medidas foram necessárias para que essa identidade se mantenha visível nos bens patrimoniais móveis que fazem parte da paisagem do município.
O tombamento consiste no registro de construções, monumentos, objetos e lugares considerados importantes por razões históricas, artísticas, tecnológicas ou afetivas. Por isso, são merecedores de proteção tanto do Estado como da comunidade. Todavia, em 1974, o município de Florianópolis iniciou o processo de preservação, através da Lei Municipal nº 1.202, que dispõe sobre a proteção de seu patrimônio e institui o instrumento do tombamento como proteção legal (MAKOWIECKY; FILHO, 2007 p. 2)
Após a transferência do SEPHAN para o IPUF, em 1979, a preservação em Florianópolis passou a ser compreendida no âmbito do planejamento urbano. Assim, além dos tombamentos de grandes monumentos, individuais ou conjuntos arquitetônicos, foi dada a atenção para a preservação da memória do município. Através do decreto municipal n° 270/86, de 30 de dezembro de 1986, foram tombados 10 conjuntos urbanos no centro da cidade de Florianópolis. Em seguida, o Decreto Municipal nº 521/89, de 21 de dezembro de 1989, tombou todos os prédios integrantes destes conjuntos históricos. Também foram tombadas pelo decreto Municipal nº 190/90 parte da malha viária central, identificada como elemento estruturador de todo o conjunto arquitetônico (MAKOWIECKY; FILHO, 2007 p. 3).
Atualmente, em Florianópolis, existem vários outros bens culturais patrimoniais móveis tombados por toda a Ilha de Santa Catarina. A seguir, serão descritos apenas os que representam a região central antiga, mais conhecidas pela população. Os conjuntos históricos tombados na região central de Florianópolis são descritos por Makowiecky & Filho, (2007 p. 3-7).
1. Conjunto I – Centro Histórico
Núcleo da antiga Vila de Nossa Senhora do Desterro que se ergueu segundo os moldes expressos nas ordenações portuguesas de 1747.
2. Conjunto II - Hospital de Caridade
É formado principalmente pelo Hospital de Caridade e a Capela do Menino Deus e a Rua Menino Deus antigo caminho de ligação ao sul da Ilha.
3. Conjunto III – Bairro do Mato grosso
O caminho de acesso ao Forte São Luiz, existente desde o século XVIII, hoje abrange residências, praça e várias edificações.
4. Conjunto IV – Bairros da Tronqueira
Abriga vestígios da cidade antiga, apresentando várias edificações antigas.
5. Conjunto V – Rua General Bittencourt
É um conjunto antigo com presença de edificações antigas e o antigo caminho de acesso ao norte da ilha.
6. Conjunto VI – Rua Hermann Blumenau
Esse conjunto possui casario antigo eclético do inicio do século XX.
7. Conjunto VII – Nossa Senhora do Rosário
Abrange a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos construída no século XVIII.
8. Conjunto VIII – Praia de Fora
Foi na Praia de Fora (atual Beira Mar Norte), que Dias Velho fundador da Póvoa de Nossa Senhora do Desterro, aportou no séc. XVII. Nesta orla foram construídas duas fortificações (Forte de São Francisco Xavier e Forte de São Luiz), e a ligação entre ambas era feita pela Rua da Praia de Fora. Durante muitos anos foi o local onde as famílias mais abastadas possuíam chácaras.
9. Conjunto IX – Rua do Passeio
Conhecida no século passado como Rua do Passeio e Rua Formosa, servia de ligação entre o centro da cidade e o antigo Forte de São Francisco Xavier, localizado na Praia de Fora, e se caracterizava pela presença de chácaras, com imponentes residências
10. Conjunto X – Rita Maria
Nesta área situava-se o antigo cais Rita Maria, a zona portuária da cidade, onde, além dos diversos armazéns e fábricas, formou-se uma pequena vila operária, formada por casas geminadas, originalmente idênticas e que constituíam as moradias dos operários.

Na maioria das cidades antigas de Santa Catarina, como Florianópolis, São Francisco do Sul e Laguna, há grande quantidade de edificações que representam a história de colonização e contato cultural entre diversos grupos humanos. Muitas das manifestações da cultura antiga são trazidas dentro de nós através de costumes e expressões. No entanto, as edificações materiais são formas mais visíveis da história de um povo. Nelas, é verificada a imponência dos momentos históricos e seus significados.
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![]() | ![]() Figura 39: Igreja Nossa Senhora do Rosário. Fonte: FLORIPA TV, 2014. |

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