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Santa Catarina

SC

Capivari de Baixo

Região:
Sul
Área do território:
Mesorregião:
Sul Catarinense
População (censo de 2022):
Microrregião:
Tubarão
Região imediata:
Tubarão
Região intermediária:
Criciúma
53.222
23975
  1. CONTEXTO ETNO-HISTÓRICO

A história de Capivari de Baixo se relacionada diretamente à de Tubarão compreendendo aspectos geomorfológicos e de ocupação humana similares em toda a região sul de Santa Catarina. Nessa área localizada entre a serra e o mar a ocupação ocorreu há séculos por grupos humanos conhecidos como caçadores-coletores associados às Tradições Umbu e Humaitá, pescadores-coletores também chamados de Sambaqueiros, e grupos ceramistas denominados de Jê e Guarani que tiveram contato direto com os primeiros colonizadores europeu. Nesse contexto de ocupação regional Capivari de Baixo guarda alguns desses testemunhos nos sítios arqueológicos distribuídos pelo território.

O processo de colonização de Capivari de Baixo ocorreu no final do século XVIII e início do XIX por descendentes de luso-brasileiros, alemães e italianos que fixaram residências formando pequenas propriedades rurais voltadas para o cultivo agrícola, em especial de mandioca que promoveu a origem dos engenhos de farinha. Além dos descendentes europeus, os descendentes de negros africanos também foram fundamentais para a constituição da identidade de Capivari, sendo muitos deles impulsionados pela perspectiva de novas terras e trabalho nas fazendas (FARIAS, 2004).

A Colônia de Santo Antonio dos Anjos de Laguna foi o local de origem desses descendentes de imigrantes europeu e negros. De acordo com Domingos (2003) a partir da década de 1720, os lagunenses avançaram na direção sul do tratado de Tordesilhas conquistando terras dos espanhóis se deslocando na direção do atual Estado do Rio Grande do Sul e Colônia do Sacramento. Mais tarde um dos fatores relacionados à ocupação da região foi o comércio de produtos entre a Serra Catarinense e o Porto de Laguna, uma vez que através do caminho das tropas e das navegações do Rio Tubarão, até Laguna, alguns poucos vilarejos se formaram ao longo do trecho.  Nesse comércio os produtos oriundos da serra eram trocados por artigos do litoral, tais como peixe e farinha de mandioca (ZUMBLICK, 1974; VETTORETTI, 1992 apud ZAMPATETTI, 2023).

Nesse período a região era bastante inóspita com vegetação fechada e basicamente nenhuma estrutura de passagem ou paragem, fazendo com que esses descendentes de imigrantes tivessem que abrir caminhos antes nunca abertos e conhecidos pelos europeus. No início as habitações se resumiam a casebres feitos com paredes de barro e palmeiras nas coberturas, utilizando os recursos naturais disponíveis. Aos poucos às pequenas clareiras abertas tomaram forma e as terras foram empossadas, dando origem às primeiras estruturas rurais, no qual se desenvolveram de maneira ainda precária a agricultura de subsistência desses povoadores (DOMINGOS, 2003).

Com o passar do tempo os pequenos agrupamentos deram origem a Freguesia de Capivari, que contou com a construção da Capela de São João Batista no ano de 1918, local onde hoje está edificado o Ginásio de esportes Carlos Brunato Silva (DOMINGOS, 2003).

A origem do nome de Capivari vem da palavra “Capivary”, que no dicionário Tupi-Guarani, de Silveira Bueno, significa rios das capivaras, e deu origem ao nome do rio que nasce no município de São Bonifácio e passa pela cidade de Capivari de Baixo de desaguando no rio Tubarão (DOMINGOS, 2003).

  Até 1941, Capivari de Baixo ainda era um bairro do interior do município de Tubarão onde predominava a atividade agrícola de subsistência, com poucos moradores (IBGE, 2023). A partir desse ano um evento político e econômico muito importante mudou rapidamente a história da localidade. Foi em 11 de dezembro de 1941, que o então presidente Getúlio Vargas assinou o decreto n°3.920 autorizando a desapropriação de terras em Capivari de Baixo para a instalação de uma Usina de Beneficiamento de Carvão. Nesse processo foram indenizados 18 proprietários de terras nas quais compreendiam a área destinada a obra (DOMINGOS, 2003).

O anúncio da instalação das obras da Usina de Beneficiamento de Carvão (com casa de britagem, lavagem, silos), da Usina Termoelétrica (UTE) e da oficina de reparos, transformou Capivari em um imenso canteiro de obras, com a chegada de profissionais de diversas áreas, em especial, engenheiros e operários da construção (FAUSTO, 2001). No ano de 1942 a estrutura rural do bairro começou a se modificar fazendo surgir à necessidade de trabalhadores qualificados, o que promoveu a vinda de operários de várias regiões para Capivari (ZAMPATETTI, 2023).

Segundo Domingos (2003 p. 23),

A Vila Operária obedeceu a um traçado urbanístico de alto nível de saneamento básico e infra-estrutura inéditos em Tubarão: água encanada e tratada, esgoto pluvial e cloacal, com sistema de decantação, energia elétrica, lotes urbanos com área mínima de 75m², casas de alvenaria com o devido conforto básico, escola e jardim de infância. A estrutura de lazer não deixou por menos: clubes recreativos, como a Siderurgia e Recreio do Trabalhador, quadras de futebol e vôlei, cinema e cooperativa. A estrutura da Vila Operária do Bairro Capivari era um modelo tanto para Tubarão como para outras cidades vizinhas.

Assim, se considera que a chegada da CSN em Capivari transformou de vez a trajetória de desenvolvimento e as perspectivas para o até então bairro rural de Tubarão. De acordo com Farias (2004 p. 204),

A instalação do Complexo Carbonífero em Capivari – CSN, a partir de 1943, com o fluxo de novos moradores, ao invés de prejudicar, fortaleceu a economia local, tanto estimulando a produção agrícola, devido ao aumento do consumo de produtos regionais: feijão, farinha de mandioca, milho, arroz, como fazendo aparecer novas fontes de renda, através de empregos assalariados gerados pela CSN e a Estrada de ferro Tereza Cristina.



Figura 1: Vista geral da localidade de Capivari no ano de 1953, quando ainda era um bairro do município de Tubarão, SC.


A Usina comandada pela “Companhia Siderúrgica Nacional” uma empresa de economia mista, teve seus investimentos financeiros e tecnológicos oriundos dos Estados Unidos por meio da Export – Import Bank, conseguidos em conjunto com o governo brasileiro. No ano de 1945 a empresa entrou em operação e já em 1943 as desapropriações já haviam sido realizadas, iniciando assim o andamento das obras de construções (DOMINGOS, 2003).

Em relação escolha de Capivari para a instalação da Usina demais estruturas, Domingos (2003 p.23) argumenta os seguintes fatores:

Primeiramente à abundância de água do Rio Tubarão, aumentada com a junção do Rio Capivari; em segundo lugar, o fato de estar próximo ao Porto de Imbituba. Outro motivo, que pesou nesta determinação, foi que os dois principais ramais da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina (Criciúma, Urussanga, Lauro Muller) se juntavam em Tubarão, facilitando a descarga do carvão.

Ainda em relação à importância da ferrovia, Goulart (2009 apud Zamparetti, 2023) enfatiza que a existência de uma malha ferroviária ligando as regiões das minas de Criciúma e Lauro Muller foi uns dos fatores decisivos para o estabelecimento da usina e do lavador de carvão, pois o carvão oriundo desses locais era beneficiado em Capivari e posteriormente seguia para os portos de Laguna e Imbituba, abastecendo as siderurgias estatais localizadas no sudeste do Brasil.


Figura 2: Estação de Capivari de Baixo nos anos 1940. Fonte: Revista Brasil Constrói/Estações ferroviárias, 2024.
Figura 2: Estação de Capivari de Baixo nos anos 1940. Fonte: Revista Brasil Constrói/Estações ferroviárias, 2024.

A imagem a seguir mostra como era a estrutura edificada do lavador de carvão no ano de 1953.






Figura 3: Imagens do Lavador de Carvão de Capivari, no ano de 1953. Fonte: IBGE, 2024.


Décadas mais tarde em 1960 foi instalada outra usina, denominada Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda, que deu continuidade ao processo de desenvolvimento de Capivari. Em 1971 já estavam sendo operadas quatro unidades dentro do complexo termoelétrico, e no ano 2000 chegou a ser a maior da América Latina com 7 unidades (SERTEK, 2009 apud ZAMPATETTI, 2023).

Entre os anos de 1942 até 1990 a constituição histórica de Capivari se formou em torno dessas duas empresas. Contudo, em 1990 a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) encerrou suas atividades deixando aproximadamente 300 pessoas desempregadas, ficando apenas o Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda em operação. O fechamento da empresa causou grandes impactos em Capivari. O primeiro deles e talvez o mais visível na época fosse o econômico com tantos desempregados, e o segundo o aspecto ambiental que resultou em uma grande área destruída (BET, 2007).

Por volta de 1986 o então bairro de Capivari de Baixo pertencente a Tubarão, apresentava um número considerável de residências principalmente dos operários que trabalhavam na usina. Nessa estrutura urbana que se criou foram constituídos estabelecimentos comerciais e de serviços que supriam as necessidades dos moradores locais, tornando o bairro bastante independente da região central da cidade de Tubarão (BET, 2007).

Sendo um berço da mais poderosa estatal daquela época, nos investimentos provocaram um extraordinário surto de desenvolvimento econômico, com alterações sócio-cultural, não só no bairro de Capivari, mas também no município de Tubarão e região carbonífera (DOMINGOS, 2003 p.24).

Diante da situação urbana de Capivari, organizações políticas locais se organizaram para elevar o bairro a distrito. Assim, em 18 de outubro de 1987 Capivari foi oficialmente elevada à categoria de distrito de Tubarão (BET, 2007).

A elevação para distrito foi o primeiro passo para que Capivari de Baixo se preparasse para a instalação de uma comissão de emancipação com o objetivo de se tornar independente de Tubarão. Em 15 de março de 1992 ocorreu o plebiscito que aprovou com 4.377 votos o desmembramento de Tubarão.

De acordo com Corrêa (2006, p.18)

Através da Lei 8.556, de 30 de março de 1992, da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, quando Presidente Stélio Cascaes Boabaid e o Governador do estado de Santa Catarina Vilson Pedro Kleinubing, foi criado o município de Capivari de Baixo, oficialmente, instalado em 1° de janeiro de 1993, cujos primeiros mandatários, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, foram eleitos em 3 de outubro de 1992.

De acordo com Farias (2004) a emancipação política e administrativa transformou de uma vez por todas a comunidade de Capivari de Baixo, uma vez que todo investimento e renda preconizados com as empresas e os comércios, agora ficariam para o novo município que pode investir em infra-estrutura de saneamento básico, calçamento de vias públicas, escolas e postos de saúde, gerando na população uma qualidade de vida melhor ao ponto de incentivar cada vez mais a identidade de progresso e cidadania dentro da comunidade.

  1. REFERÊNCIAS

BET, Marcos Cardoso. O carvão em Santa Catarina até o final do século XX: Impacto social do fechamento do lavador de Capivari para seus funcionários. 2007. UNISUL, Tubarão, 2007.


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Somos Puros. Campinas, São Paulo: Papirus, 1990.


CORREA, E. Capivari de Baixo/SC – 1992-2005: a trajetória de emancipação e o processo de formação do município. 2006. UNISUL, Tubarão, 2006.


COSTA, Michel Silva. Métodos sustentáveis de mineração e controle de impacto ambiental na extração de areia do Rio Capivari, Município de Armazém, Santa Catarina. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ, Florianópolis/SC. 2016.


DEMATHÉ, Alexandro. Relatório Final. Projeto de acompanhamento arqueológico na área de implementação de pavimentação asfáltica na Rua Maria da Silva Alves , município de Capivari de Baixo – SC. 2023.


DOMINGOS, Aline Bittencourt. O estudo da história regional no ensino fundamental de 1° a 8° serie, no âmbito da rede pública municipal de Capivari de Baixo. 2003. Unisul, Tubarão, 2003.


Estações Ferroviárias. Estação de Capivari de Baixo. E. F. Tereza Cristina (1940-2012). Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/eftc/capivari.htm.


FARIAS, Vilson F. Capivari de Baixo: capital termoelétrica da América Latina. Florianópolis; Editora do autor, 2004.


FARIAS, Deisi Scunderlik Eloy de. Relatório Final. Prospecção Arqueológica na área do Sambaqui Capivari I, em Capivari de Baixo – SC. Tubarão 2010


FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2001.


GIANNINI, Paulo César Fonseca. Complexo Lagunar Centro-Sul Catarinense: Valioso patrimônio sedimentológico, arqueológico e histórico.SIGEP 75. 1993.


IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Histórico. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sc/capivari-de-baixo/historico. Acesso em: 2024.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE; Geografia do Brasil – Região Sul. Rio de Janeiro, SERGRAF – IBGE, Vol. 5. p. 1-533, 1977.


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE; Topografia do Nível Médio do Mar no Litoral Sul-Sudeste Brasileiro. Recife, 2008.


MENDONÇA, F. Dualidade e dicotomia na Geografia moderna. RA'EGA, o espaço geográfico em análise da Geografia Brasileira. SP: Annablume, 2006.


NOELLI, Francisco Silva. A ocupação humana na região sul do Brasil: arqueologia, debates e perspectivas – 1872-2000. In: Revista USP. São Paulo. (44):218-269. dez/fev 1999-2000. Dossiê Antes de Cabral: Arqueologia Brasileira II.


PREFEITURA MUNICIPAL DE CAPIVARI DE BAIXO, 2024. Disponível em: https://www.camaracapivari.sc.gov.br/imprensa/institucional/o-Municipio/1/2022/2. Acesso: 2024.


SANTA CATARINA. Atlas de Santa Catarina. Florianópolis: Gaplan, 1986.


SANTA CATARINA. ATLAS GEOGRÁFICO DE SANTA CATARINA

DIVERSIDADE DA NATUREZA | Fascículo 2.Florianópolis, 2016.


ZAMPARETTI, Bruna Cataneo. Tem um sambaqui na minha rua! Multivocalização e experiência patrimonial: o exercício da Arqueologia Colaborativa. Florianópolis, 2023. (Tese submetida ao Programa de Pós-graduação em História da Ufsc).

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