Santa Catarina
SC
Araranguá
Região:
Sul
Área do território:
Mesorregião:
Sul Catarinense
População (censo de 2022):
Microrregião:
Araranguá
Região imediata:
Araranguá
Região intermediária:
Criciúma
301.819
71922

CONTEXTO ETNO-HISTÓRICO
A história de ocupação da região que hoje abrange o município de Araranguá é bem mais antiga do que a data de sua fundação. Sua ocupação humana tem início com os grupos indígena sambaquis e posteriormente os ceramistas Jês e Guarani, que fizeram da paisagem litorânea e de encosta seu habitat, tirando da natureza sua subsistência.
Dentro dos limiares de ocupação indígena quando voltamos para o início da colonização europeia é inevitavelmente dissociar todo o processo conflituoso de contato entre nativos e colonizadores. De acordo com Dall’Alba, muitos são os relatos de moradores e descendentes que descrevem histórias de conflitos entre índios e colonizador. Relatos que apontam as situações de crueldade e conquista de território que resultou em morte dizimando sociedades inteiras (PRESA, 2011).
Ainda dentro desse contexto de contato entre nativos e colonizadores Zanelatto et al, (2015) faz uma análise da representação indígena e a legitimação de seu extermínio no sul de Santa Catarina, durante o processo de colonização no final do século XIX e início do século XX. Para tal análise o pesquisar se utiliza de dados bibliográficos com base em fatos e entrevistas, tendo como fonte de pesquisa indispensável a obra do padre Leonir Dall’Alba intitulada Histórias do Grande Araranguá, publicada em 1997.
A análise do livro de Dall’Alba, que é constituído basicamente de entrevistas e relatos históricos obtidos em conversas com moradores antigos, se relaciona com documentos históricos relacionados ao período dos “bugreiro”. Assim a análise proposta por Zanelatto, tem como finalidade interpretar as falas dos sujeitos históricos - colono, índio e bugreiro, visando contextualizar com o processo complexo de ocupação do sul Catarinenses, pelo qual foi complacente com lusos e açorianos, em seguida recebeu imigrantes europeus alemães e italianos. Por meio das narrativas o autor enfatiza a riqueza de detalhes das ações dos “bugreiro”, bem como a invisibilidade indígena no processo histórico Catarinense, como se houvesse literalmente uma queima de arquivo histórico, que tem como objetivo tornar invisível a existência indígena na região (ZANELATTO et al, 2015).
Com o povoamento das terras catarinenses nasceram os conflitos entre brancos e índios. Os brancos formavam as chamadas tropas de brugreiros e atacavam os índios com armas de fogo. (...)a ação dos “bugreiros”, no estado de Santa Catarina, na medida em que as frentes de alemães e italianos foram avançando para o interior, encurralando os indígenas, o confronto tornou-se inevitável, surgindo assim a figura do bugreiro, indivíduo especializado em atacar e exterminar os nativos, contratado pelos colonos imigrantes e pelo governo provincial. Os bugreiros especializaram-se em ataques surpresa, arrasavam as aldeias não dando aos indígenas, chance de resistência. A maioria era aparentada entre prestar serviços às colônias e seus habitantes. Também os viajantes, tropeiros e agrimensores utilizavam-se constantemente dessas tropas para sua proteção quando necessitavam atravessar ou permanecer em território onde a presença indígena era freqüente (TEIXEIRA, 2006 p. 19 -20).
Haja vista o contexto de colonização da região sul do Brasil é importante destacar que Araranguá, não difere do restante do território catarinense, sendo o resultado de disputas e interesses entre paulistas e Lagunense que tinham como objetivo conquistar riquezas aprisionando indígenas, e conquistando territórios. Fato este confirmado quando se compreende os interesses por trás das missões jesuíticas no Rio Grande do Sul, que promoveram a fundação da Colônia do Sacramento, com o intuito de atingir o estuário do rio da Prata (ZILLI, 2014).
A fundação da Colônia de Sacramento em 1680 no rio da Prata foi a materialização do processo de expansão comercial e territorial do Estado lusitano e luso-brasileiro. No século XVIII a colônia localizada no norte do rio da Prata, expressou o abandono dos limites do Tratado de Tordesilhas, destacando-se um ponto estratégico comercialmente envolvendo a introdução de produtos por luso-brasileiros e estrangeiros no Prata. Além de obviamente ser uma fonte importantíssima de matéria prima valiosíssima na época, tal como o metal principal componente das moedas e que naquele período estava em falta (PRADO, 2003).
Em 1748 ocorre o processo de imigração açoriana para o litoral catarinense. No contexto de ocupação desses imigrantes destacam-se no litoral três importantes pólos disseminadores dessa colonização, são eles: São Francisco do Sul (São Francisco do Sul), Santo Antônio dos Anjos (Laguna) e Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis) (TEIXEIRA, 2006).
No sul de Santa Catarina a Freguesia de Santo Antônio dos Anjos em Laguna foi o pólo norteador para a chegada dos imigrantes açorianos em Araranguá e seus arredores. Na região ocorreram três núcleos de açorianos, sendo o segundo incluindo Araranguá. De acordo com Hobold (2005 p.128 apud TEIXEIRA, 2006),
Os núcleos secundários, em que se incluem Araranguá e diversas outras vilas mais antigas, ocorreram entre 1760 e 1880, sendo resultado natural da ocupação de novas terras e crescimento populacional da região. Já os núcleos terciários, ocorreriam desde 1882, à fixação de descendentes em diversas freguesias e povoações.
Porém é a partir de 1850 que novos imigrantes açorianos que ocuparam o território de Laguna seguem margeando o litoral em direção a Araranguá, que no período era denominada de Campinas. A inserção desses novos imigrantes após 1850 configurou uma característica mais urbana a região de Campinas, expandindo-se a partir da foz dos rios criando traçados de colonização que se seguiam mais para o interior (TEIXEIRA, 2006).
As vilas açorianas do povoamento inicial das margens do rio Araranguá eram compostas por algumas dúzias de casas erguidas em adobe, pau a pique e cobertura de palha. As famílias eras nucleares, unidas por complexas redes de parentesco que os ligavam à fidalguia portuguesa. A produção tinha por objetivo o comércio para a obtenção dos produtos da metrópole e a aquisição de itens manufaturados de outros países da Europa.Os sítios arqueológicos coloniais estão próximos da margem do rio, enquanto que os sítios cerâmicos encontram-se no terraço fluvial do mesmo (PESTANA, 2019 p.6).
Seguido do processo de ocupação da região sul e para dar corpo a esse processo de conquistas territorial Presa (2011) salienta a importância da abertura do caminho do sul. Segundo ao autor, vieram para a região indivíduos que desenvolviam todos os tipos de funções, desde tropeiros, mercadores, contrabandistas até soldados da Bahia, Minas Gerais, além de soldados diretamente enviados pelo reino de Portugal. Tudo para fomentar o processo de abertura do caminho do sul que ligaria a região de Sorocaba aos campos meridionais.
Araranguá, pela sua posição topográfica de passagem obrigatória que o situa na crista desse caminho de não poucos desses acontecimentos, constitui indiscutivelmente o ponto de referência único de penetração da costa marítima, em caráter de efetividade particular e oficial. Por mais de dois séculos, a começar pelos andarilhos indígenas, foi ponto forçoso de acesso, por via terrestre para os que transitavam para o Sul e para o Norte. O seu rio, segundo muitas informações de épocas passadas era soberbo pelas suas águas vastas, profundas e poderosas e nas imediações de cuja desembocadura se tornou conhecido o local denominado – Conventos (HOBBOLD, 2004, p. 55 apud PESTANA, 2019).
Assim em meados do século XVIII, a efetivação desse caminho proporcionou a Araranguá tornar-se uma rota de passagem importantíssima para os tropeiros vicentista.
(...) foi através desses caminhos de grande importância, que pôde-se fazer uma ligação entre Rio Grande do Sul com São Paulo, pelo interior. (...) os caminhos de tropas do século XVIII – XIX, e a existência da Estrada de Matos proporcionaram grandes lucros para Curitiba. Isso se deve ao fato de a mesma estar situada no entroncamento de duas rotas, sendo visitada freqüentemente pelos tropeiros dessa estrada, que lhe estimulavam o comércio (TEIXEIRA, 2006 p.14).
As interferências econômicas e sociais nos locais por onde atravessou o caminho das tropas resultaram em modificações estruturais importantes contribuindo para a organização das cidades que se formaram nesse contexto.
Com o caminho das tropas, formou-se um longo curso de fazendas de invernada e criação, locais de importância fundamental ao repouso e engorda do gado extenuado pelas longas jornadas, o que acabou por transformar esta região em fronteira de expansão da pecuária paranaense e gaúcha (TEIXEIRA, 2006 p.13).
De acordo com Zili (2014 p. 26)
Provavelmente, os primeiros assentamentos de Laguna aos Campos de Cima da Serra tenham mesmo ocorrido não muito tempo após a abertura do histórico Caminho dos Conventos. Tudo começa por volta de 1728, quando teve início esse processo. Fator este decisivo para a formação do município de Araranguá e demais regiões do Extremo Sul Catarinense.
O mapa a seguir aponta de forma específica todos os traçados dos caminhos das tropas ligando a região do interior de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Ele destaca que dos cinco caminhos, o que atravessava o litoral sul compreendendo Araranguá era o caminho aberto por Francisco de Souza Faria, ligando-se diretamente ao norte Catarinense podendo ser percorrido pelo caminho das Palmas até Sorocaba.

Durante o século XIX e início do século XX a economia da região de Araranguá se baseava na cultura da cada grande e na produção da farinha e do polvilho. A grande mão de obra utilizada nas fazendas tinha origem nos mulatos e negros forros que trabalhavam como empregados (PESTANA, 2019). Ainda nesse período muitos europeus emigraram para o Brasil e para outros países da América incentivados pela política de imigração que preconizava o continente, bem como pela insatisfação quanto às condições de vida e trabalho que estavam sujeitos na Europa (TSCHUDI,1988).
De acordo com Vieira Filho e Weissheimer (2011), nos séculos XVIII e XIX a Europa passa por intensas transformações que resultaram em rompimentos de relações seculares, promovendo o crescimento demográfico das cidades e diminuição populacional nas áreas rurais, resultando em um colapso social e econômico. O cenário era desolante, com milhões de pessoas vivendo a margem da sociedade europeia, sem moradia, sem emprego e os que tinham deveriam se submeter a carga horaria exaustiva, sem nenhuma garantia trabalhista, em uma condição social e econômica indigna, além de péssimas condições de saúde e higiene que sofriam os grandes centros urbanos (VIEIRA FILHO; WEISSHEIMER, 2011).
Nesse panorama de acontecimentos a população pobre da Europa em especial na Alemanha, Itália e Polônia, não encontraram outra a opção a não ser emigrar para o Brasil, atrás da promessa de uma nova vida em novas terras.
No Brasil, Santa Catarina foi um dos lugares escolhidos para esse processo, tendo como precursor a necessidade de ocupação do território localizado mais ao interior do Estado.
Assim, para delinear a situação em que se encontrava o Brasil nesse período Weissheimer (2012 p. 107), descreve alguns fatos importantes para o desenvolver desse processo.
No sul do país, o processo de imigração de grupos europeus ocorrido entre meados do século XIX e meados do século XX foi decisivo para fomentar um dos mais expressivos contextos culturais brasileiros. Com a vinda da Família Real e a Abertura dos Portos em 1808, a imigração de grupos estrangeiros passou a ser estimulada como política oficial de incremento à povoação, especialmente nas chamadas “terras devolutas”, grandes porções de território ainda desprovido de povoações oficiais – embora muitas vezes ocupadas por grupos indígenas -, localizadas em regiões interioranas, distante do litoral já vastamente povoado e pontilhado de cidades.
Por volta de 1876 inicia na região sul de Santa Catarina a imigração italiana com a criação de diversos núcleos coloniais que se organizam no Vale do rio Tubarão. Nesse período o governo imperial nomeia o engenheiro Joaquim Ferreira para instalar e organizar essas colônias. No ano de 1877, é fundado o núcleo Azambuja, seguida por Urussanga em 1878 e Criciúma em 1880. Nas cabeceiras dos rios Tubarão, Gravatal e Braço do Norte, é criada a colônia de Grão Para, que além de italianos recebeu outros imigrantes europeus (ZANELATTO, 2011).
Em Araranguá os imigrantes italianos vieram em especial das colônias de Azambuja, Urussanga e Nova Veneza. Nesses núcleos principais de maneira geral assim como os que surgiam a partir desses, organizavam-se em pequenas propriedades voltadas para a prática agrícola de auto-subsistências. A diversificação dos cultivos também era uma das características desses núcleos, o que resultava na produção doméstica e possibilidade de troca e comercialização de produtos com outras localidades. Entre os principais produtos cultivados e consumidos pelos imigrantes estão: fumo, farinha de mandioca, açúcar, cachaça e o arroz (ZANELATTO, 2011).
A adaptabilidade dos imigrantes também foi algo necessário uma vez que muitos dos cultivares acostumado por eles não se adaptavam ao clima tropical da região, sendo assim, foi preciso que incorporassem o conhecimento alimentar e agrícola dos açorianos que por sua vez aprenderam com os nativos indígenas, um desses exemplos está no cultivo da mandioca como alimento.
É nesse contexto de colonização em meados do século XIX que Araranguá inicia seu processo de formação administrativa. No ano de 1848 é criado o distrito de Nossa Senhora Mãe dos Homens, pela lei Provincial nº 272, de 04-05-1848, subordinado ao município de Laguna. Pela leiPela lei provincial, Nossa Senhora Mãe dos Homens passou a denominarem-se Campinas. No ano de 1880 a lei provincial eleva Campinas a categoria de vila com a denominação de Araranguá, desmembrando-se dos municípios de Laguna e Tubarão (IBGE, 2020).
Aos poucos é anexada a vila de Araranguá outros distritos próximos denominados Passo do Sertão e Criciúma. Assim, no ao de 1911 o então município de Araranguá é constituído por 3 distritos. No ano de 1912 é criado o distrito de Nova Veneza que também é anexado a Araranguá. Entre os anos de 1914 à 1948 são criados o distrito de Praia Grande, Sombrio, Timbé, Turvo, Sombrio, Meleiro e Cangicas, que também são anexados a Araranguá (IBGE, 2020).
Com a expansão do território de Araranguá a partir da década de 50 os distritos anexados começaram a emancipar-se como município se anexando a outros distritos. Finalmente a divisão territorial datada de 15-7-1999, o município de Araranguá é constituído de 4 distritos: Araranguá, Hercílio Luz, Balneário Morro dos Conventos e Sanga da Toca (IBGE, 2020).
REFERÊNCIAS
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